Por Cleber Lourenço
Há algo fora do lugar na crise entre André Mendonça e a Polícia Federal. Não porque seja absurdo desconfiar de um ministro que chegou ao Supremo pelas mãos de Jair Bolsonaro, depois de servir ao seu governo. Essa trajetória existe, importa e deve ser considerada.
O problema começa quando a biografia de Mendonça deixa de ser contexto e passa a funcionar como resposta. Nas últimas semanas, consolidou-se uma narrativa simples: de um lado, a PF tentando investigar; do outro, um ministro bolsonarista incomodado com as investigações.
É uma história fácil de compreender. E talvez por isso algumas perguntas difíceis estejam passando quase despercebidas.
A mais evidente: por que a Polícia Federal pediu a abertura de três inquéritos diferentes em torno de uma mesma acusação de tráfico de influência?
Os pedidos partiram da própria PF. Não foi Mendonça quem decidiu, por iniciativa própria, abrir três investigações. Isso tampouco significa que exista irregularidade. Inquéritos podem ser desmembrados quando há fatos, investigados ou objetos distintos.
Mas quais são, precisamente, essas diferenças? O que cada inquérito investiga? Qual fato novo justificou cada abertura? E quais provas existiam quando as representações foram apresentadas?
Essas perguntas ganham importância diante de outro dado que apurei. Informações provenientes das quebras de sigilo envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ainda não foram integralmente anexadas aos autos das investigações do INSS. Ao mesmo tempo, alguns elementos relacionados às novas frentes foram formalmente juntados no mesmo dia ou apenas um dia depois dos pedidos para abertura dos inquéritos sobre o suposto tráfico de influência.
A cronologia não prova irregularidade. Pode haver uma explicação processual absolutamente normal. Os dados podem, por exemplo, ter chegado antes à PF e sido formalmente juntados posteriormente. Mas é exatamente isso que precisa ser explicado: quais elementos estavam disponíveis quando cada pedido foi feito e qual caminho percorreram até aparecer formalmente nos autos?
Quando uma mesma suspeita produz três inquéritos, essa discussão toca também no risco de uma fishing expedition, a chamada pesca probatória. Em termos simples, ocorre quando a investigação deixa de perseguir fatos previamente delimitados e passa a ampliar seu campo na expectativa de encontrar algo que sustente novas suspeitas.
Não afirmo que tenha sido isso o que aconteceu. A documentação precisa responder. Mas, diante da sucessão de procedimentos e das dúvidas sobre o momento de incorporação das provas, é espantoso que a hipótese sequer esteja no centro das perguntas.
Há outro componente delicado. A estrutura da PF responsável pelos inquéritos nos tribunais superiores está envolvida em algumas das investigações mais sensíveis do país. É a equipe que atua no caso do INSS, está em frentes relacionadas ao Banco Master e integra justamente o ambiente em que surgiu o atrito com Mendonça.
Nada disso torna seus integrantes suspeitos. Seria cometer o mesmo erro que critico aqui: julgar atos pela identidade de quem os pratica. Mas o acúmulo de casos sensíveis e o conflito com o relator são razões para aumentar o escrutínio, não para diminuí-lo.
E há um episódio especialmente revelador de como a narrativa passou a andar na frente dos fatos.
Circulou a informação de que Mendonça teria determinado uma investigação contra o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Seria gravíssimo e encaixava-se perfeitamente na história de um ministro bolsonarista partindo para cima da corporação. Só havia um problema: conforme apurei, essa investigação não existiu.
O que houve foi um pedido de informações sobre o andamento das apurações depois da troca de delegados do caso do INSS. A PF pediu mais prazo alegando falta de pessoal, e Mendonça questionou por que uma investigação daquela dimensão havia sido encaminhada a uma coordenadoria já sobrecarregada.
Se houve pressão indevida, que seja demonstrada. Se Mendonça extrapolou sua função, que seja publicado. Mas pedir informações e mandar investigar o diretor-geral da PF são coisas completamente diferentes.
É aqui que o comportamento de manada se torna perigoso. Não é necessário que jornalistas combinem versões. Basta uma interpretação se tornar dominante a ponto de determinar quais fatos merecem atenção e, pior, quais perguntas passam a parecer inconvenientes.
Mendonça foi ministro de Bolsonaro e chegou ao STF indicado por ele. Isso não explica por que existem três inquéritos sobre uma mesma acusação. Não esclarece onde estavam os dados das quebras de sigilo. Tampouco responde quais provas fundamentaram cada pedido da PF nem mesmo explicam a origem dos vazamentos no caso.
Questionar esses pontos não inocenta Mendonça nem acusa a Polícia Federal. Jornalismo deveria ser justamente o exercício de deixar a conclusão para depois da apuração.
O problema começa quando fazer perguntas passa a ser confundido com escolher um lado.
