ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x
Por Catarina Duarte — Ponte Jornalismo
A oitava audiência de instrução e julgamento do processo que apura o Massacre de Paraisópolis, prevista para esta terça-feira (26/8), foi cancelada. Nela seria ouvido o policial militar Vinicius José Nahool, testemunha de defesa. Mesmo com a decisão judicial, os familiares das vítimas mantiveram o ato que já estava marcado para a manhã desta terça-feira (26/8) em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda.
O Massacre de Paraisópolis foi uma ação da Polícia Militar de São Paulo que, em dezembro de 2019, terminou com nove jovens mortos, com idades entre 14 e 23 anos.
O juiz Antonio Carlos Ponte de Souza negou o pedido da defesa para adiar a audiência, alegando que Nahool está afastado por questões médicas desde outubro de 2023. A previsão inicial era de alta em agosto de 2025, mas o prazo foi prorrogado para outubro do mesmo ano, sem garantia de que o policial terá condições de depor.
Diante disso, o magistrado considerou prejudicado o depoimento da testemunha e determinou que Nahool não será mais ouvido. Como a audiência teria apenas esse depoimento, ela foi cancelada. É apenas ao final da etapa de instrução que o juiz decidirá se os policiais militares réus serão levados ou não a júri popular — momento em que eles podem, de fato, ser condenados pelas mortes.
PM atuava na Rocam na noite do massacre
Na época do massacre, Nahool integrava a Força Tática do 16º Batalhão Metropolitano e, naquela madrugada, estava na Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam). Ele e outros cinco policiais registraram no 89º DP (Portal do Morumbi) que participavam de uma operação de combate ao pancadão quando dois agentes avistaram suspeitos em uma moto XT 660.
Segundo os relatos, os ocupantes não obedeceram à ordem de parada e ainda dispararam contra os policiais. Na sequência, teriam tentado se esconder na multidão do baile da DZ7. Os PMs afirmaram que foram atacados com pedras e garrafas e reagiram, mas os supostos agressores nunca foram identificados.
De acordo com os depoimentos, outros policiais teriam agido em apoio à Rocam, embora tenham se deslocado para uma rua oposta ao ponto onde o reforço havia sido solicitado. Nahool e outros cinco agentes chegaram a ser afastados após o episódio, mas não foram indiciados pela Polícia Civil.
Defensoria questionou motivo da ida dos PMs até o baile
Até agora, entre os policiais da Rocam, apenas Rodrigo Cardoso da Silva foi ouvido em audiência do massacre. Ele prestou depoimento na sétima audiência de instrução, realizada em março.
O principal questionamento a Rodrigo foi sobre a perseguição à motocicleta. Ele afirmou que o garupa da moto disparou contra os policiais, que não revidaram, e que a perseguição seguiu até a dupla entrar no baile. Ainda segundo sua versão, mesmo diante da multidão o garupa teria continuado a atirar, mas os agentes, alvo de hostilização, decidiram não entrar no fluxo de pessoas. Rodrigo disse que foi sua modulação de rádio que informou ao Copom sobre a suposta perseguição e ressaltou que, no momento em que não entraram na multidão, os agentes já estavam em segurança.
Questionado pela Defensoria Pública, que atua como assistente de acusação, sobre o motivo de seguirem até o baile mesmo após a perseguição ter cessado, Rodrigo respondeu que o objetivo era apoiar os colegas que já estavam dentro da multidão. Ele não soube esclarecer quantos tiros teriam sido disparados contra sua equipe nem se recebeu informação de que os jovens baleados chegaram com vida ao hospital.
Além de Rodrigo, outros três policiais da Rocam que atuaram na ocorrência e também foram afastados, Antonio Marcos Cruz da Silva, Thiago Roger Lima Martins de Oliveira e Renan Cesar Angelo, constam como testemunhas de defesa. Na última segunda-feira (25/8), o juiz questionou se a defesa dos réus ainda insistia em manter os depoimentos desses agentes. Caso haja desistência, a próxima audiência será destinada ao interrogatório dos réus.

Ato em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda marcou protesto de familiares e movimentos sociais contra cancelamento de audiência e extinção da punibilidade de PM | (Foto: Ian Felippe/Divulgação)
‘Duas bombas que jogaram na gente’
O cancelamento da audiência ocorreu em meio à revolta das famílias diante da decisão que declarou extinta a punibilidade do soldado José Roberto Pereira Pardim, que até então respondia pelo crime de explosão. Em agosto de 2023, Pardim havia recebido o benefício da suspensão condicional do processo, que funciona como um “período de prova”. Durante até dois anos, o processo fica suspenso, e o réu deve cumprir condições impostas pela Justiça, como comparecimento periódico em juízo, não cometer novos crimes ou prestar serviços comunitários.
Concluído o período, o juiz verificou que Pardim havia cumprido todas as exigências. Por isso, declarou extinta sua punibilidade, o que significa que o processo foi encerrado definitivamente e o policial não poderá mais ser punido por esse crime.
“O maior fator estabilizado nesses últimos dias foram as duas notícias de uma vez só. As duas pauladas, as duas bombas que jogaram na gente”, diz Maria Cristina Quirino, mãe de Denys Henrique Quirino Silva, morto aos 16 anos. Os familiares estenderam faixas com fotos e nomes de cada uma das vítimas em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda.