Depois de meditar – só e em silêncio, num canto da sala onde recebia as atualizações dos boletins do Tribunal Superior eleitoral – por não mais de meia hora, pouco antes das oito da noite, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconquistou um certo brilho no olhar, chamou a primeira-dama Rosângela Silva e o vice-presidente Geraldo Alckmin para junto de si, além de alguns auxiliares e ex-ministros como Fernando Haddad, Marina Silva Simone Tebet e o ministro-chefe da Secom, Sidônio Palmeira, e o presidente do PT, Edinho Silva. “Para a gente vencer, tem de mudar tudo. Comunicamos mal, entregamos mal, erramos com os jovens e as mulheres”, disse Lula. “Mudar tudo, já”, decretou. Em seguida, pediu que o ex-ministro da Educação Camilo Santana, fosse alcançado em Fortaleza, onde celebrava a reeleição em primeiro-turno do governador Elmano de Freitas.
A vitória de Elmano em sabor especialíssimo para o presidente porque ela se deu sobre um Ciro Gomes (PSDB), ex-aliado e ex-amigo transtornado pelo ódio partidário e geracional e também porque no Ceará o PT conseguiu conter o entusiasmo dos eleitores da Geração Z com o deputado André Fernandes (PL). Um dos “enfants terribles” do Congresso Nacional, Fernandes chegou a rivalizar com Nikolas Ferreira a liderança da bancada de extrema-direita sub-32 da Câmara dos Deputados. Sem um nome majoritário forte em território cearense, urdiu a aliança com Ciro, que redundou no naufrágio do tucano no (talvez) último ato de sua carreira política. “Elmano, Jerônimo, Rafael, lá no Piauí, souberam dialogar com essa turma. Temos que fazer campanha como eles fizeram. No Brasil todo”, ainda comentou o petista depois de parabenizar Camilo e convocá-lo para estar no núcleo central da campanha de segundo turno. Serão apenas 20 dias de rua, redes sociais e presença em todos os debates e sabatinas.
Num outro momento, Lula elogiou também a reconfiguração política do governador reeleito da Bahia, Jerônimo Albuquerque. Cria política dos senadores Rui Costa e Jaques Wagner, Jerônimo ganhou luz própria e foi repaginado, conquistando voz e autenticidade de posturas, à medida que os dois ex-governadores baianos iam trilhando caminhos próprios que os tirassem do alçapão m que se meteram depois de exposta a amizade visceral de ambos com o ex-banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no liquidado Banco Master. Para tocar sua campanha, Jerônimo repatriou o fotógrafo e roteirista brasileiro Sérgio Guerra, baiano que estava radicado em Angola há mais de 32 anos, desde que se integrou à equipe de produtores e jornalistas desembarcada em Luanda pelo publicitário Geraldo Walther (Geraldão, vitimado por um câncer fulminante em 1998). Integrante da turma de Nizan Guanaes, foi Walther quem consolidou e catalisou toda a geração de marqueteiros baianos formada por Duda Mendonça, João Santana, Fernando Barros e muitos dos que trabalham até hoje com Sidônio Palmeira. Lula quer uma rápida mudança em toda a linha de sua campanha – e elogiou muito o “novo” Jerônimo nascido nos palanques reeleitorais.
Para o mercado financeiro – que ele detesta – e para os controladores dos veículos de mídia tradicional, o presidente petista deixará claro que busca o quarto mandato para evitar que o Brasil trilhe o caminho tomado pela Hungria de Viktor Orbán. Modelo de devastação institucional e dissolução do tripé de convívio harmônico das democracias republicanas modernas – Executivo, Legislativo e Judiciário, com a imprensa e a sociedade civil organizada como “instituições paraestatais vigilantes” do processo – Viktor Orbán obteve um primeiro mandato de primeiro-ministro em 2002. Perdeu duas eleições sucessivas para a esquerda social-democrata. Em 2012 recuperou o poder e passou a atacar o Judiciário, a desmontar todos os veículos de mídia arrumando empresários amigos do governo para compra-los e calá-los, alterou a configuração da Corte Suprema ampliando de 11 para 15 ministros seu quórum e desmantelou organizações civis e a Academia. Neste link, um artigo da revista Liberta conta como se deu: https://revistaliberta.com.br/digital/democracia-no-brasil-riscos-congresso-judiciario/ .
A segunda-feira, 5 de outubro, é dia de restruturação interna do novo comando ampliado da campanha de reeleição presidencial, com Camilo Santana ocupando posto de destaque nele, e de roteirização das novas peças de campanha, do balanço nas redes e da convocação de todos os deputados e senadores eleitos do campo progressista para que se engajem fortemente nela. Lula também vai procurar, diretamente ou por meio de interlocutores, os controladores dos grandes veículos de comunicação a fim de adverti-los – olho no olho – das ameaças que estão por vir às instituições e à economia do país caso sigam estabelecendo parâmetros comparativos díspares e injustos entre ele e o adversário. Flávio Bolsonaro é uma aventura que dará desastrosamente errado para todos, crê o presidente. O difícil está sendo convencer os “senhores da falsa equivalência” da assertividade desse vaticínio.
