Apesar de suas políticas de conciliação e das críticas dirigidas à sua aproximação com setores da elite econômica e com o chamado Centrão, Lula continua a representar, tanto simbólica quanto discursivamente, uma dimensão profundamente popular da sociedade brasileira. Essa dimensão não se limita à sua origem social ou à sua trajetória como líder sindical e metalúrgico; ela também se relaciona à memória histórica das lutas populares que atravessaram a formação do país.
Seu modo de falar, suas referências discursivas, suas escolhas simbólicas e até mesmo elementos de sua indumentária, como o chapéu-panamá, contribuem para reatualizar a presença política das classes trabalhadoras no espaço público. A figura do metalúrgico oriundo do agreste e dos sertões brasileiros ainda provoca incômodo em determinados setores intelectuais, em segmentos da grande imprensa e entre grupos que resistem a políticas de inclusão e redução das desigualdades sociais.
Nesse sentido, as entrevistas realizadas no Jornal Nacional por Renata Vasconcellos e Tralli podem ser analisadas menos como sabatinas orientadas à exploração equilibrada de propostas e mais como manifestações de uma lógica de enquadramento político. A insistência em perguntas relacionadas ao suposto envolvimento do filho de Lula com uma lobista não é, por si só, incompatível com o exercício do jornalismo. A questão reside na proporção conferida ao tema e na recorrência de uma abordagem que parece reativar a associação, consolidada no imaginário político brasileiro desde a Operação Lava Jato, entre Lula e a corrupção.
O problema, portanto, não está em exigir esclarecimentos sobre denúncias ou suspeitas, mas em avaliar se houve equilíbrio na seleção das questões e na distribuição do tempo dedicado aos diferentes temas. Ao privilegiar reiteradamente um episódio de natureza acusatória, a entrevista teria deixado em segundo plano assuntos estruturais para o país, como soberania nacional, meio ambiente, desenvolvimento econômico, desigualdade social e políticas de inclusão.
Essa escolha editorial sugere uma concepção de jornalismo político mais orientada pela acusação, pela personalização e pela exploração de suspeitas do que pela análise comparativa de projetos e responsabilidades públicas. O contraste com a entrevista de Flávio Bolsonaro – especialmente caso não sejam aplicados critérios semelhantes de questionamento e escrutínio – será, nesse aspecto, um elemento relevante para avaliar a (in) coerência da linha editorial adotada pelo programa.
A crítica, portanto, não se dirige à existência de perguntas sobre corrupção, mas à assimetria na abordagem dos diferentes atores políticos. Quando determinados candidatos são submetidos a um regime permanente de suspeição, enquanto outros recebem tratamento mais brando ou menos incisivo, o jornalismo deixa de ser percebido apenas como mediador crítico da informação e passa a participar ativamente da disputa pela construção da legitimidade política da preferência da empresa jornalística. É nessa dimensão que a entrevista pode ser interpretada como um episódio de forte dramatização midiática, eivada de preconceitos e julgamentos precipitados, marcada por uma perspectiva seletiva sobre os conflitos e as responsabilidades da vida pública brasileira. Em todo caso, a questão que não quer calar é que Flávio Bolsonaro tem a forma e o conteúdo que são historicamente apreciados pela limitadíssima (e autoritária) elite brasileira. A ver.
