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Lula e a operação que desmontou a desconfiança dos EUA

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Não é a primeira vez que Luiz Inácio Lula da Silva precisa enfrentar a desconfiança da Casa Branca. Ainda que em 2026 a dimensão da ameaça seja inédita, um relato do novo livro de Fernando Moraes revela os bastidores de como a equipe do petista agiu para desmontar a suspeita que nutria outro republicano contra o grupo de esquerda no Brasil. No caso, o ano era 2002. E quem estava no poder era George W. Bush.

Em seu livro “Lula, Volume 2” (Companhia das Letras) — a segunda parte da trilogia sobre o presidente —, o escritor conta a história de como a equipe de Lula montou uma estratégia para se aproximar da Casa Branca, antes mesmo de a eleição de 2022 ocorrer. E, assim, convencer o poder nos EUA de que o petista não era uma ameaça.

“Numa reunião da qual participaram, além de Lula, José Dirceu, Gushiken, Palocci, Gilberto Carvalho, o deputado federal paulista Ricardo Berzoini, Mercadante e Luiz Dulci, decidiu-se que alguém deveria viajar a Washington, em nome de Lula e do PT, para as primeiras conversações com gente do governo e do mundo das finanças”, contou Moraes.

“Para espanto de muitos, a escolha recaiu sobre José Dirceu, o ex-guerrilheiro que fora libertado da prisão em troca do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick e que vivera exilado em Cuba durante muitos anos”, aponta o livro.

Segundo a obra, “ao contrário do que acontecera com os sequestradores de Elbrick, proibidos perpetuamente de pôr os pés em território norte-americano, sobre os presos trocados pelo embaixador não pesava nenhuma sanção”. Dirceu era um deles.

Na biografia, Moraes revela que quem melhor descreveu a viagem precursora de Dirceu aos Estados Unidos — que teve o decisivo e discreto apoio do banqueiro Mário Garnero — foi o pesquisador Matias Spektor, da Fundação Getulio Vargas.

A viagem começou em julho de 2002 e, naquele momento, Dirceu não falava e nem entendia inglês. “Não conhecia quase ninguém. Entretanto, em apenas quatro dias, teve encontros com bancos, empresas, agências de rating, a sociedade civil e o governo americano”, disse.

Em Nova Iorque, conversou com gente do JP Morgan, Citigroup, Morgan Stanley, Lehman Brothers, ABN AMRO, Bear Stearns, Alcoa e Moody’s. Em Washington, visitou a central sindical americana, o Banco Interamericano, o Departamento de Estado, o Tesouro, o Conselho Econômico Nacional e o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca.

“O raciocínio era claro: se o PT ganhasse as eleições e houvesse uma fuga de capitais, Lula teria de apelar para Bush”, contou o livro.

“Se a direita americana lançasse ataques contra o governo brasileiro de esquerda, o único homem capaz de domá-la também seria Bush. De uma forma ou de outra, era necessário construir algum tipo de interlocução entre a campanha de Lula e a Casa Branca”, relatou Moraes.

Dirceu, portanto, agiu de uma forma a dar sinais diplomáticos claros aos americanos.

“Fez visitas de cortesia ao Executivo. Apresentou-se à gente vinculada a Bush pai e ao vice-presidente Dick Cheney. E foi fotografado no Ground Zero, onde, menos de um ano antes, haviam ruído as Torres Gêmeas”, relatou.

Moraes conta que o governo americano recebeu Dirceu com um pé atrás. “Ninguém sabia exatamente o que Dirceu faria”, lembra um funcionário do setor de inteligência. “A gente sabia que o Brasil era uma nação jovem e, por isso, muitas vezes atuaria como adolescente e seria imaturo. Mas havia gente jogando a bola na direção correta, e Dirceu provou ser essa pessoa.”

O segredo para o êxito da missão teria sido a disciplina com a qual Dirceu preparou a viagem. Ele se transformou no ponto de referência do governo norte-americano para lidar com o Brasil. “As pessoas em Washington aprenderam que, quando falavam com Dirceu, estavam falando com Lula”, lembra Donna Hrinak (embaixadora dos EUA no Brasil).

“Os americanos ficaram estupefatos, perplexos”, diria o próprio Dirceu. “Não esperavam ouvir o que eu estava falando.” […] A operação de Dirceu nos Estados Unidos desarmou o medo em campo republicano e criou um clima de interesse em relação a Lula. “Depois da visita de Dirceu, nós reconhecemos que tínhamos de fazer negócio com o Brasil”, lembra Roger Noriega [embaixador dos Estados Unidos junto à OEA — Organização dos Estados Americanos].

“Lula era um democrata. O Brasil tinha instituições fortes. Terminamos dando-lhe o benefício da dúvida.” Otto Reich [subsecretário de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental] também se convenceu. Depois da eleição de Lula, ele deu uma guinada inimaginável. “Tudo o que pudermos fazer para ajudar no governo Lula faremos. Essa é a grande prioridade do presidente Bush”, disse à imprensa.

E, sem ironia, passou a repetir a frase pela qual passara uma reprimenda a Hrinak meses antes: “Lula encarna o sonho americano”.





ICL Notícias

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