Apesar dos indicadores econômicos positivos do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), parte significativa da população brasileira segue percebendo piora nas condições de vida. É o que analisa um ensaio assinado pelos economistas Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), e Guilherme Klein, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador de pesquisa macroeconômica do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made), no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo, no domingo (10).
O texto parte de um aparente paradoxo: enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu acima das expectativas nos últimos três anos, o desemprego caiu para mínimos históricos e milhões deixaram a extrema pobreza, a percepção popular continua negativa. Pesquisa Ipsos-Ipec de março mostra que 42% dos brasileiros consideram a situação econômica pior do que seis meses antes, contra apenas 27% que enxergam melhora.
Para os autores, o governo entrega “uma macroeconomia de resultados respeitáveis”, mas não consegue reproduzir a experiência subjetiva de ascensão social vivida durante os dois primeiros mandatos de Lula, nos anos 2000.
A comparação inevitável com o passado
Segundo o ensaio, o principal problema do governo atual é ser comparado ao próprio lulismo do passado. Os autores argumentam que os governos Lula entre 2003 e 2010 promoveram um raro ciclo de crescimento com redução acelerada da desigualdade, sustentado pela valorização do salário mínimo, ampliação das transferências de renda e expansão do emprego formal.
Naquele período, milhões de brasileiros passaram a consumir bens e serviços antes inacessíveis. Já no Lula 3, embora a renda dos mais pobres volte a crescer, o avanço ocorre em ritmo mais lento e após uma década marcada por recessão, estagnação e perda de renda.
O resultado, dizem os economistas, é que a melhora atual é percebida mais como um “alívio insuficiente” do que como prosperidade.
Inflação menor, mas preços continuam altos
Outro fator central apontado no artigo é a persistência da sensação de encarecimento do custo de vida. Embora a inflação tenha desacelerado significativamente desde o pico de 2022, os preços seguem em patamares elevados em comparação ao período pré-pandemia.
Os autores destacam que alimentos simbólicos da promessa de campanha de Lula, como a picanha, continuam caros. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, cortes de carne bovina acumularam altas expressivas.
A tese defendida é que os consumidores não reagem apenas à inflação corrente, mas ao nível dos preços. Ou seja: mesmo com inflação controlada, a memória dos preços mais baixos continua influenciando a percepção da população.
Porém, eles destacam que o fenômeno da inflação é mundial: “Aqui, o Brasil não é uma exceção: é mais um caso de um fenômeno global. O aumento de preços gerado pela pandemia e pela Guerra da Ucrânia derrubou governos em todo o mundo”, apontam.
“O período 2022-2024 foi um cemitério de incumbentes: nos Estados Unidos, na França, no Japão e no Reino Unido, quem estava no poder pagou a conta de uma inflação que não criou, mas que os eleitores cobraram. A vitória de Donald Trump em 2024 é o exemplo mais gritante”, lembram.
Redes sociais ampliam frustração de consumo
O ensaio também atribui parte da insatisfação a mudanças culturais produzidas pelas redes sociais. Segundo os autores, plataformas como TikTok, Shein e Shopee ampliaram o horizonte de consumo desejado pelas classes médias e populares.
Se nos anos 2000 o padrão de comparação era o círculo social imediato, agora o trabalhador é constantemente exposto a estilos de vida sofisticados e inalcançáveis para grande parte da população.
Para Carvalho e Klein, essa “globalização das aspirações” intensifica a sensação de frustração, mesmo entre pessoas cuja renda aumentou recentemente.
Nesse contexto, medidas como a taxação de compras internacionais de pequeno valor ganharam forte repercussão negativa nas redes sociais e alimentaram campanhas digitais contra o governo.
Endividamento e bets
O crescimento do endividamento das famílias e das apostas online também aparece como consequência desse descompasso entre renda e aspiração.
Os economistas argumentam que crédito caro e bets não são a origem da insatisfação social, mas sintomas de uma população que tenta sustentar padrões de consumo acima do que a renda permite.
“O desejo de consumir além do que o salário corrente permite — alimentado pelas redes sociais, pela publicidade e pela memória dos anos 2000 — leva milhões de brasileiros a recorrer ao crédito”, diz trecho do artigo.
Dados citados no texto mostram que cerca de 77% das famílias brasileiras estavam endividadas em 2024. Entre os mais pobres, o percentual ultrapassa 80%.
Além disso, as apostas esportivas teriam encontrado terreno fértil entre pessoas sob forte pressão financeira, funcionando muitas vezes como tentativa desesperada de complementar renda.
Diploma já não garante ascensão social
Outro elemento destacado é a frustração de uma geração que ampliou a escolaridade sem obter a ascensão prometida.
Os autores lembram que programas como Prouni, Fies e cotas universitárias permitiram o acesso de milhões de jovens ao ensino superior. No entanto, a expansão acelerada de cursos privados e de educação àa distância gerou grandes diferenças de qualidade na formação.
“Essa expansão produziu uma geração que foi a primeira das suas famílias a frequentar uma universidade. A promessa implícita era que estudar garantiria uma vida melhor que a dos pais. O diploma seria o passaporte para a classe média consolidada, para o emprego formal e para o salário que permitiria consumir o que as gerações anteriores não puderam”, diz outro trecho.
Segundo o artigo, muitos jovens foram levados a acreditar que o diploma garantiria estabilidade e ascensão econômica, mas encontraram um mercado de trabalho incapaz de absorver essa nova massa de graduados em empregos de qualidade.
Apesar disso, o artigo traz um dado da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mostra que “brasileiros com ensino superior completo ganham, em média, 148% a mais que quem tem apenas o ensino médio — a terceira maior vantagem salarial do mundo e quase três vezes a média da OCDE. Em princípio, o diploma ainda vale. O problema é que esse número médio esconde disparidades brutais de qualidade”.
Essa quebra de expectativa, afirmam, alimenta ressentimento político e volatilidade eleitoral.
Crescimento ainda insuficiente
Apesar das críticas à desconexão entre PIB e popularidade, os autores rejeitam a ideia de que o crescimento econômico perdeu importância. Para eles, a expansão da economia continua sendo condição essencial para reduzir desigualdades e recuperar a renda perdida na última década.
O desafio do governo, concluem, é transformar os bons indicadores macroeconômicos em experiências concretas de bem-estar, segurança econômica e melhora perceptível da qualidade de vida.
“Não se engane: se voltássemos a experimentar uma recessão econômica com elevação do desemprego como a de 2015-16 ou mesmo a estagnação dos governos [Michel] Temer [MDB] e [Jair] Bolsonaro [PL], a população estaria ainda mais insatisfeita e todos voltariam a dar importância à macroeconomia, sobretudo os mais pobres e menos escolarizados, que são os primeiros a perder o emprego e o salário em momentos de crise”, diz outro trecho.
Entre as agendas apontadas como estratégicas estão a redução do peso do crédito caro, ampliação de serviços públicos, geração de empregos mais qualificados, reforma tributária progressiva e mudanças nas jornadas de trabalho, como o debate sobre o fim da escala 6×1.

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