Por Aléxia Sousa
(Folhapress) – A Justiça do Rio de Janeiro determinou medidas protetivas contra o maestro Marco Aurélio Xavier, fundador e ex-regente das Meninas Cantoras de Petrópolis, após ex-integrantes do coral relatarem abusos sexuais, psicológicos e morais cometidos ao longo de décadas.
As denúncias foram reveladas pela Revista Piauí, em junho e agosto.
O grupo, que existiu entre 1976 e 2016, foi um dos mais tradicionais e renomados do país, sendo o primeiro coral formado exclusivamente por vozes infantojuvenis femininas, com integrantes de 5 a 15 anos.
A decisão, da 3ª Vara de Garantias de Petrópolis, foi obtida pela Defensoria Pública do Rio, que atua em defesa das ex-coralistas. O órgão divulgou as medidas nesta quinta-feira (27).
A Folha procurou Xavier para comentar as acusações, a decisão e a investigação, mas não conseguiu localizar o ex-maestro ou seu advogado. O processo tramita sob sigilo, e Xavier apagou o perfil no Instagram em que havia publicado manifestações sobre o caso.
Em um vídeo divulgado em 24 de junho, após a primeira reportagem da piauí, e apagado horas depois, o maestro afirmou que era “imensamente pior” do que aquilo que havia sido relatado pelas mulheres e disse que seus “grandes mestres foram nazistas”.
Uma das mulheres que procuraram a piauí para relatar abusos, a jornalista e escritora Carla Magno, 39, afirmou à Folha que foi chamada pela Polícia Civil para prestar depoimento na investigação aberta sobre o caso. Segundo ela, foi a primeira ex-integrante a ser ouvida.
Carla entrou nas Meninas Cantoras quando tinha cerca de 9 anos. Ela descreve o ambiente como marcado por disciplina rígida, medo e humilhações. Segundo a jornalista, meninas que erravam ou chegavam atrasadas eram expostas diante das demais.
“Ele humilhava as meninas que erravam. Ele dava apelidos que ele chamava de nome artístico. Mas ele dava apelidos de cunho racista, misógino, várias coisas desse tipo.”
Segundo Carla, as meninas também disputavam a atenção do maestro. “A minha relação era igual à de todas as outras meninas. Era uma relação de que eu temia ele. Eu tinha medo dele e, ao mesmo tempo, queria que ele gostasse.”
Ela relata ter sofrido o primeiro episódio de abuso sexual aos 12 ou 13 anos, durante uma viagem de ônibus do coral para São Paulo. Segundo Carla, durante a noite, com as luzes apagadas, Xavier pegou sua mão e a colocou sobre o pênis dele, por cima da calça.
“Eu fiquei meio congelada. Você fica assim, sabe? O que está acontecendo? Estranho.”
Pouco tempo depois, segundo o relato, ocorreu um segundo episódio, em um hotel em São Paulo. Carla afirma que o maestro pediu que ela fosse ao quarto dele e, lá, colocou a mão por dentro de sua calça e tocou suas partes íntimas.
O episódio foi interrompido quando uma mãe que acompanhava o grupo bateu à porta. Carla diz que Xavier mandou que ela se escondesse dentro de um armário.
“Foi quando virou a chave para mim. Eu falei: Não, tem alguma coisa muito estranha. Por que ele mandou eu me esconder? Eu não posso estar aqui.”
Depois disso, Carla afirma que deixou de falar com Xavier, embora tenha permanecido no coral até o fim do período previsto. Ela diz que passou anos pensando em como denunciar o que havia acontecido e começou a procurar outras ex-integrantes.
Carla afirma que seu principal objetivo é romper o silêncio em torno dos relatos. “Minha principal preocupação é dar voz a quem passa, às mulheres e às meninas, que percebam esse tipo de situação, que contem para os outros, que denunciem.”
Para ela, a reação do ex-maestro após a publicação das reportagens revela um sentimento de impunidade.
A jornalista diz esperar que o caso produza mudanças para além de uma eventual responsabilização individual. “Mais importante que isso é que sirva de alguma mudança social.”
Medidas protetivas
A decisão judicial determina que Xavier não faça manifestações públicas sobre o caso, as vítimas ou testemunhas, inclusive em veículos de imprensa e redes sociais.
Em caso de descumprimento, poderá haver remoção do conteúdo e multa de R$ 50 mil.
O ex-regente também está proibido de manter contato com supostas vítimas, familiares e testemunhas e deve manter distância mínima de 500 metros delas.
A Justiça determinou ainda a retirada de fotos das quatro ex-coralistas habilitadas no processo da página do Facebook “Meninas Cantoras de Petrópolis” e a preservação dos dados e metadados da página.
Segundo a Defensoria, o Coletivo das Meninas Cantoras de Petrópolis reúne mais de 50 mulheres. A instituição realizou reuniões com ex-integrantes para colher depoimentos e também comunicou os fatos ao Ministério Público, além de solicitar informações à Polícia Civil e a outros órgãos.
Investigação Policial
O Ministério Público confirmou à reportagem que requisitou em junho a instauração de inquérito na 105ª DP (Petrópolis). O órgão informou, no entanto, que o assunto estava sob sigilo legal.
A investigação também abrange as declarações de Xavier no vídeo publicado nas redes sociais após a primeira reportagem da piauí.
Questionada pela reportagem, a Polícia Civil não forneceu detalhes adicionais sobre a investigação. O Tribunal de Justiça do Rio informou que uma busca pelo nome de Xavier não localizou processo relacionado ao caso e disse ser provável que ele tramite sob segredo de Justiça.
