Por Cleber Lourenço
A indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal acentuou tensões no Senado e expôs um incômodo que já vinha sendo percebido nos bastidores. O mal-estar ganhou forma ontem, quando aliados relataram que Davi Alcolumbre cogitou derrubar a votação do REARP — o projeto que permite a atualização do valor de imóveis no Imposto de Renda — como sinal de desagrado com a decisão de Lula de não indicar Rodrigo Pacheco ao Supremo. Embora o gesto não tenha avançado, ele marcou o tom da reação inicial do presidente do Senado.
O REARP é considerado relevante pelo governo por ampliar a arrecadação e oferecer uma saída fiscalmente vantajosa para contribuintes que desejam regularizar valores patrimoniais defasados. A simples ameaça de tirá-lo de pauta foi lida no Planalto como um recado político claro e imediato.
Segundo integrantes do senado com acesso ao Palácio do Planalto, a reação de Alcolumbre não representa rompimento, mas um movimento clássico de reposicionamento. Senadores próximos o descrevem como um animal político pragmático, abastecido por cargos, influência e capilaridade institucional, e que não opera na lógica errática observada na Câmara, onde figuras como Hugo Motta criam impasses “a troco de nada”. No Senado, dizem, Alcolumbre não rompe — recalibra o preço.
A interpretação dominante é que o senador pretende ajustar a relação com o governo, enviando sinais em pautas de menor impacto e ampliando margens de negociação, sem ameaçar matérias estruturais. “O alinhamento não muda, o que muda é a fatura”, resume um interlocutor envolvido diretamente na articulação.
Nesse contexto, a chegada de Messias ao Senado encontra um ambiente mais resistente do que o Planalto admite publicamente. Senadores diretamente envolvidos na construção de votos afirmam que a aprovação deve ocorrer, mas com margem estreita, num clima descrito como “no limite”, em alguns momentos mais tenso que o observado nas sabatinas de Flávio Dino e Paulo Gonet. A avaliar feita é de que “se Dino, o comunista, e Gonet, o que denunciou Bolsonaro, foram aprovados, não há razão para recusar Messias, o evangélico”.

Messias deve ser aprovado com margem estreita
A irritação tornou-se explícita quando Alcolumbre foi questionado por jornalistas sobre a espera pela indicação formal: “Tem que esperar, fazer o quê? Se eu pudesse, eu fazia a indicação.” A resposta cristaliza uma frustração acumulada. A ida de Pacheco ao STF reorganizaria o desenho político do Senado e ampliaria a influência de Alcolumbre sobre a Corte — cenário que, segundo senadores, o presidente da Casa tratava como encaminhado até a última semana.
Integrantes da articulação afirmam que o desconforto não se restringe ao nome escolhido, mas também ao timing da decisão. Havia a expectativa de que Lula seguraria o anúncio por mais algumas semanas para permitir uma costura mais ampla com as principais lideranças. A formalização do nome de Messias foi interpretada como a sinalização de que a negociação estava encerrada.
Diante desse quadro, o governo passou a atuar em duas direções: retardar o envio formal da indicação até mapear completamente o comportamento das bancadas e intensificar conversas bilaterais com senadores refratários. A estratégia busca evitar qualquer episódio que possa tensionar a tradição de que nenhum indicado ao STF foi rejeitado.
Apesar do desconforto e da margem apertada, a avaliação predominante entre articuladores e senadores é que Messias deve ser aprovado. Não há ambiente político para inaugurar o precedente de rejeitar um ministro do Supremo, e o custo institucional de uma derrota desse porte é visto como alto demais por todos os envolvidos.
O processo, no entanto, reposiciona forças dentro do Senado: um presidente da Casa irritado, mas pragmático; um governo obrigado a operar voto a voto; e uma disputa de influência que começou antes mesmo de a indicação ser protocolada. Para interlocutores ouvidos pela coluna, a aprovação virá — mas exigirá reconstrução cuidadosa de pontes e atenção a cada movimento do plenário.