A Caatinga está no centro das discussões climáticas durante a Semana do Clima da Caatinga, realizada em Pernambuco, pelo Centro Sabiá e o Instituto Socioambiental (ISA). No segundo dia do evento, lideranças indígenas, quilombolas, representantes de movimentos populares e do governo federal ressaltaram a necessidade de mais investimentos em restauração e de regulação dos empreendimentos de energia renovável que avançam sobre o Semiárido.
Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente, alertou para os impactos dos grandes projetos energéticos no bioma e defendeu a ampliação das fontes de financiamento. “Estamos falando de um bioma extremamente especial, único no mundo, que só existe aqui. Ele reúne comunidades tradicionais, agricultores e assentamentos de reforma agrária. As pessoas vivem na Caatinga e têm uma codependência com sua existência. Por isso, é preciso pensar em mais investimentos”, afirmou.
Pires citou que o território vem sendo afetado pelo avanço de diversos empreendimentos privados, e que esse setor também deveria arcar com a conta da restauração do bioma.
“Quando cito essas iniciativas privadas, é porque acredito que precisamos dar um passo importante: cobrar que esses setores também invistam no processo de restauração da Caatinga. Afinal, a Caatinga está sendo usada para desmatamento em nome da energia eólica, da energia solar, da mineração ou da produção de commodities para exportação. Existe um déficit, e a iniciativa privada precisa assumir a responsabilidade de investir também na restauração e preservação desse bioma”, concluiu.
A secretária de Povos Tradicionais do Ministério do Meio Ambiente, Edel Moraes, reforçou que a diversidade dos biomas brasileiros deve estar no centro da agenda climática global. “A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro que nos ensina sobre adaptação e resiliência. Reconhecer a Caatinga é reconhecer que o Brasil é diverso e plural em seus povos e comunidades”, destacou, lembrando o papel dos saberes ancestrais e das mulheres na luta por justiça climática.
Representando os povos indígenas, Alessandra Curapi comparou os desafios do Semiárido com os vividos na Amazônia. Ela citou os impactos do garimpo, como a contaminação por mercúrio, e apontou a gravidade de ver rios secos e florestas queimando. Já Jaime Amorim, dirigente do MST, relacionou a crise climática à histórica concentração de terras no Semiárido. “A causa da desesperança sempre foi o latifúndio. Apesar de avanços recentes, a pobreza ainda é consequência da falta de políticas públicas”, afirmou.
Márcio Astrini, Secretário Executivo do Observatório do Clima, também destacou que os problemas ambientais expulsam os agricultores do bioma e favorecem que tem dinheiro para comprar estas terras. Ele também destacou os efeitos da injustiça climática. “Quem sofre mais os efeitos das mudanças do clima é quem acaba pagando mais”, disse.
O Caatinga Climate Week segue até o próximo sábado (4). Além dos debates, a programação incluiu visitas a territórios do bioma, onde agricultores e agricultoras desenvolvem experiências inovadoras de convivência com o Semiárido. Os participantes conferiram de projetos como hortas agroecológicas, associações de mulheres agricultoras e a adaptação de cultivos às novas condições climáticas.
Essas iniciativas, segundo os organizadores, mostram que o bioma pode ser protagonista na construção de soluções sustentáveis frente à crise global.
