Gesto não acontece apenas com o movimento do corpo ou corpos, inclui intencionalidade. Automatismos são desprovidos de gestos. Portanto, em uma definição simples, segundo o filósofo tcheco Vilém Flusser, gesto seria o “movimento no qual se articula uma liberdade, a fim de se revelar ou de se velar para o outro” (Flusser, 2014, p. 17).
Lendo isso me ocorreu o caso de Jesus, os seus gestos foram intencionais para se revelar e para se relacionar. Interações intencionais.
Os gestos de Jesus foram na direção dos outros (comunicação) e não para manutenção da religião (ritual).
Gestos corriqueiros se diferenciam dos rituais religiosos, ainda que ostentem movimentos dos corpos.
Gostei da expressão “gestos corriqueiros”.
Nos ritos religiosos, prevalecem as regras e formas repetidas. Enquanto nos gestos corriqueiros sobressai a espontaneidade do momento.
Os gestos são expressões de um sentir que se materializa nos movimentos dos corpos.
A propósito, que eu saiba, Jesus não condenou os rituais religiosos. Criticou a hipocrisia. Quando a vida vivida contradiz os sentidos evocados dos ritos. Os rituais se esvaziam quando a pessoa implicada não encarna os sentidos.
Quando o rito religioso se transforma em um fim em si mesmo, ele se limita à condição de monólogo. Nesse monólogo, a comunidade de fé se movimenta em função de si mesma, se ensimesma.
A arte não sobrevive sem o gesto. Contudo, o gesto artístico também pode se ensimesmar quando os seus movimentos se limitam ao valor estético e pouco se importam com os valores éticos.
Gestos manifestam modos de estar no mundo. E ainda, gestos são fenômenos éticos, movimentos deliberados do corpo.
Atos semióticos. Movimentos que incorporam desejos, sentimentos e significados.
A sensação é que não vai adiantar fazer o gesto porque ninguém está prestando atenção. Geração que anda de cabeça baixa com olhar fixo na tela. Movimentos intencionais dos corpos para dizer algo não serão percebidos. Não estaríamos no tempo oportuno para gestos sutis, supõem os mais desanimados na sociedade do desempenho.
O Profeta Gentileza escrevia nos muros da cidade do Rio de Janeiro. Tão importante quanto ler o conteúdo seria prestar atenção ao gesto. Para além do que foi escrito nos pilares do viaduto do Caju e toda materialidade, Marisa Monte prestou atenção com sensibilidade no espírito da letra.
Um pastor sexagenário fez uma postagem linda nas redes sociais cheia de intencionalidade. Fotografia dele tomando a vacina contra a hepatite e o tétano. No primeiro semestre do ano tomou as vacinas contra a gripe e a Covid-19. Celebra por viver num país onde tem acesso gratuito à vacinação por meio do SUS.
Dodô, octogenária, no final do culto me deu um saco cheio de folhas de louro. No quintal dela tem um pé de louro plantado diretamente no solo. Dodô não é de muitas palavras. Disse que era para temperarmos o feijão. O sorriso tímido, o afeto, o sabor do gesto simples. As folhas de louro da Dodô aqui em casa são sagradas, para além do uso. O sabor do gesto que tempera o dia.
