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General Heleno sugeriu mortes para recuperar credibilidade de tropas no Haiti

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Por Jamil Chade e Cleber Lourenço

O general Augusto Heleno estava preocupado com a credibilidade das tropas brasileiras no Haiti. Em outubro de 2004, diante da escalada da violência no país caribenho, o comandante militar da missão das Nações Unidas considerava que ataques e até mortes poderiam ser necessários para recuperar a autoridade dos soldados. A avaliação contrariava outro general brasileiro, responsável direto pelas tropas, mas encontrava respaldo no discurso do embaixador dos Estados Unidos no país.

A posição está registrada em telegramas enviados pela Embaixada do Brasil em Porto Príncipe ao Itamaraty em 11 de outubro de 2004. Originalmente classificados como reservados, os documentos foram tornados ostensivos em janeiro de 2026 e integram um acervo de mais de 11 mil comunicações diplomáticas obtidas pela organização Fiquem Sabendo por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

Em um dos documentos tornados públicos pela organização nesta terça-feira (3), o embaixador Armando Vitor Boisson Cardoso relatava conversas com Heleno, comandante militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), e com o general Américo Salvador de Oliveira, responsável direto pelas tropas brasileiras.

Segundo o diplomata, Heleno acreditava que os criminosos estavam agindo com maior liberdade porque se disseminava a percepção de que os soldados brasileiros não empregariam a força.

“Haveria, assim, em sua opinião, o risco de o contingente brasileiro ficar humilhado”, registrou o embaixador.

O general considerava insuficiente a presença militar como instrumento de intimidação. Segundo o telegrama, seriam necessárias “ações concretas, ataques, apreensões de armamentos e talvez mortes para se recuperar a credibilidade da força militar”.

A avaliação, entretanto, não era compartilhada pelo general Américo Salvador de Oliveira, descrito pelo embaixador como o homem que efetivamente liderava as tropas.

Salvador temia que iniciar ataques provocasse retaliações contra os soldados brasileiros, com possíveis baixas. O documento registra que o comandante “reluta muito, assim, em empregar a violência e em acompanhar ações policiais”, preferindo uma interpretação mais restrita do mandato da ONU.

A divergência chegou a Brasília. Salvador encaminhou um relatório solicitando orientações sobre a ampliação de suas funções e o emprego da força.

Estados Unidos defendiam mais força até diante de boatos

A posição de Heleno encontrava respaldo no discurso do embaixador americano no Haiti, James Foley. Outro telegrama, enviado ao Itamaraty no mesmo dia, registra que o representante dos Estados Unidos defendia uma reação militar mais intensa, mesmo diante de ameaças que não haviam sido confirmadas.

“Para ele, os militares deveriam responder com mais força, mesmo diante de ameaças e boatos sem confirmação”, escreveu o embaixador brasileiro.

O argumento era semelhante ao apresentado por Heleno. Foley acreditava que a ausência de uma resposta militar mais dura enfraquecia a autoridade das tropas.

“Caso contrário, a Missão fica humilhada e perde credibilidade, o que já vem ocorrendo”, acrescenta o documento.

O diplomata americano também insistia que a MINUSTAH deveria deixar clara a possibilidade de empregar a força, sob o risco de continuar sendo desafiada.

Foley relatou ainda ter conversado com o secretário de Estado americano, Colin Powell, que o orientara a manifestar ao primeiro-ministro haitiano, Gérard Latortue, a insatisfação de Washington com suas críticas públicas à missão da ONU.

As conversas ocorreram às vésperas das eleições presidenciais americanas de novembro de 2004. Segundo o embaixador brasileiro, Foley demonstrava preocupação com a repercussão da violência haitiana na disputa eleitoral dos Estados Unidos.

Em outro telegrama, Latortue apresentou uma avaliação ainda mais direta. Segundo ele, Washington estava mais preocupada com suas próprias eleições do que com a situação haitiana, especialmente diante da possibilidade de uma onda de refugiados e de repercussões políticas entre os eleitores negros americanos.

A diplomacia brasileira também demonstrava preocupação com essa influência. Em conversa com Juan Gabriel Valdés, representante especial do secretário-geral da ONU, um emissário do Itamaraty advertiu que a presença internacional no Haiti “não pode ficar condicionada ao processo eleitoral norte-americano”.

General Heleno, missão Haiti, 20024
O general Heleno (à esquerda), comandante das operações de paz da ONU no Haiti, e José Viegas, ministro da Defesa, durante coletiva de imprensa em 8 de julho de 2004, em Porto Príncipe. Foto: AFP/Thony Belizaire

Heleno defendia diálogo semanas antes

A avaliação atribuída a Heleno em outubro contrastava com a posição apresentada pelo general poucas semanas antes.

Em 22 de setembro de 2004, durante reunião com representantes da comunidade internacional, o comandante brasileiro havia afirmado que a situação de insegurança no Haiti ainda era controlável.

Segundo outro telegrama diplomático, Heleno declarou que, como militar, estava preparado para usar a força e não hesitaria em fazê-lo, caso fosse necessário. Ressalvou, entretanto, que naquele momento ainda não considerava recomendável uma resposta militar mais dura e que o diálogo continuava sendo o melhor caminho.

A mudança de ênfase ocorreu em meio a pressões sobre a missão da ONU. O primeiro-ministro haitiano, Gérard Latortue, responsabilizava publicamente as tropas internacionais pela deterioração da segurança, enquanto autoridades brasileiras sustentavam que a MINUSTAH não poderia substituir integralmente a polícia haitiana.

Em reunião realizada em 7 de outubro, representantes do governo brasileiro advertiram Latortue de que “o uso da força pura e simples não facilitará a solução de longo prazo que buscamos”.

O primeiro-ministro reconheceu que suas críticas buscavam pressionar a burocracia das Nações Unidas a ampliar a atuação militar.

“Sem isto, o pessoal de Nova York não se mexe”, afirmou, segundo o registro diplomático.

Nove meses depois, operação utilizou 22.700 cartuchos

Em 6 de julho de 2005, nove meses após as discussões registradas nos telegramas, tropas da ONU sob o comando de Heleno realizaram uma grande ofensiva em Cité Soleil, região pobre e densamente povoada de Porto Príncipe.

A operação, conhecida como Punho de Ferro, tinha como alvo o líder de um grupo armado, Emmanuel “Dread” Wilme. Cerca de 440 militares participaram diretamente da ação, apoiados por veículos blindados e helicópteros.

Segundo números atribuídos à própria MINUSTAH, foram utilizados 22.700 cartuchos de munição, 78 granadas e cinco disparos de morteiro durante a operação.

A ofensiva provocou denúncias de mortes de civis. Organizações de direitos humanos apresentaram estimativas superiores ao número de mortos reconhecido pela missão, que sustentava ter atingido integrantes de grupos armados.

Um telegrama enviado pela Embaixada dos Estados Unidos em julho de 2005 registrou questionamentos sobre a quantidade de munição utilizada. O documento citou informações de que os disparos poderiam ter atravessado as paredes frágeis das residências de Cité Soleil, atingindo pessoas que não eram os alvos da operação.

O relatório americano também questionou a diferença entre a quantidade de munição empregada e o número de mortos reconhecido oficialmente.

“22 mil cartuchos é uma quantidade grande de munição para ter matado só seis pessoas”, observou o documento diplomático americano.

Relatos de organizações humanitárias apontaram que mulheres e crianças estavam entre os feridos. Médicos Sem Fronteiras informou ter atendido dezenas de pessoas atingidas por disparos durante a operação.

Em novembro daquele ano, durante audiência na Câmara dos Deputados, Heleno negou que as tropas tivessem cometido violações deliberadas de direitos humanos, mas admitiu a possibilidade de civis inocentes terem morrido durante operações militares.

Anos depois de comandar as tropas brasileiras no Haiti, Augusto Heleno se tornou um dos principais aliados de Jair Bolsonaro. Entre 2019 e 2022, ocupou o cargo de ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Posteriormente, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 21 anos de prisão por participação na trama golpista destinada a impedir a continuidade do governo eleito em 2022. Atualmente, cumpre pena em regime domiciliar.

Em outubro de 2026, uma investigação do ICL Notícias revelou, com base em fontes militares, uma articulação atribuída a Heleno para influenciar a escolha de comandantes das Forças Armadas em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo a apuração, a movimentação envolvia o comandante da Aeronáutica, Marcelo Kanitz Damasceno, nomeado por Lula em 2023, e a expectativa de uma anistia aos condenados pela tentativa de golpe. A defesa de Heleno negou a articulação e classificou a reportagem como falsa. A FAB afirmou que Damasceno não participou de reunião com o general.





ICL Notícias

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