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Generais da IA

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Por Luciana Bauer

A aproximação entre as grandes empresas de tecnologia e o aparato militar dos Estados Unidos entrou em uma nova etapa. Em junho de 2025, o Exército americano criou o Detachment 201 — Executive Innovation Corps, uma unidade da reserva concebida para incorporar diretamente especialistas de alto nível da indústria tecnológica ao processo de modernização militar. A iniciativa não se revela apenas mais uma contratação de empresas privadas pelo Pentágono. Pela primeira vez, executivos do núcleo mais sofisticado da indústria de inteligência artificial, computação e plataformas digitais passaram a integrar – formalmente – a estrutura militar como tenentes-coronéis da reserva, mantendo simultaneamente suas atividades no setor privado.

O fenômeno é particularmente relevante porque ocorre justamente quando inteligência artificial, sistemas autônomos, análise massiva de dados, drones e tecnologias de reconhecimento estão modificando a natureza da guerra. O dilema ético envolvendo possibilidade de uma maquina escolher, mediante algoritmos de optimizacao de guerra, qual humano ou quais alvos seriam atingidos, sem o filtro humano imediato, foi deixado de lado. Pois a guerra é sabidamente um ativo vital a indústria dos Estados Unidos, como seu extenso parque de industria belica. Assim, quatro altos executivos de tecnologia foram inseridos dentro do Exército em uma primeira turma, empossada em 13 de junho de 2025, cujos nomes são de enorme relevância no ecossistema tecnológico americano.

Shyam Sankar, CTO da Palantir, foi incorporado em razão de sua experiência em inteligência artificial, dados, software empresarial e resposta a situações de crise. Andrew “Boz” Bosworth, CTO da Meta, levou para a estrutura militar experiência em inteligência artificial, realidade virtual e aumentada, tecnologias de internet e robótica. Kevin Weil, então Chief Product Officer da OpenAI, foi selecionado por sua experiência em inteligência artificial, expansão de plataformas tecnológicas, satélites e tecnologias geoespaciais. Bob McGrew, ex-Chief Research Officer da OpenAI e posteriormente consultor da Thinking Machines Lab, possui experiência em inteligência artificial, grandes modelos de linguagem, robótica, integração de dados e pesquisa tecnológica.

O aspecto mais significativo é que esses profissionais não foram simplesmente contratados como consultores civis. Eles receberam patentes militares de tenente-coronel e passaram a atuar como integrantes da Army Reserve. O objetivo declarado pelo Exército é aproximar a capacidade de inovação do setor privado da burocracia militar, permitindo que especialistas tecnológicos trabalhem em projetos específicos sem abandonar suas carreiras civis.

A mudança é institucionalmente importante em como o Pentagono até agora concebeu a defesa e o ataque. Durante décadas, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos dependeu de universidades, laboratórios, empresas privadas e contratistas para incorporar inovação. O Detachment 201 cria algo diferente: uma ponte institucional na qual executivos de tecnologia passam a integrar a própria estrutura militar diretamente. Em um momento em que se fala abertamente na bolha de IA, nas promessas inconclusas do Vale do Silício com relacao à entrega da IA, e na fala de financiamneto do publico que compra acoes a estas empresas. As big techs passam de um financiamneto em bolsa para um financiamento estatal para sobreviver.

Neste diapasão há um choque tremendo, pois a lógica de acelerar a circulação de conhecimento entre dois mundos que tradicionalmente operavam em velocidades diferentes, pode se revelar desastrosa para democracias e para os direitos constitucionais tanto dentro quanto fora dos EUA. A indústria tecnológica trabalha com ciclos extremamente rápidos de desenvolvimento. Instituições militares, por sua vez, possuem processos de aquisição, testes, treinamento e regulamentação muito mais lentos.

E mais, varias empresas de seguranca e IA como a Anduril estao sendo secretamente compradas por filhos do presidente Trump, como colocamos na materia O Lado B das Tarifas. Donald Trump Jr e Eric Trump por meio da capital 1789 estao investindo em empresas que estao ganhando de forma analomala contratos de defesa, com ajuda de advocacia adminsitrativa de Marco Rubio e de Peter Navvaro, assessores direto do presidente dos Eua. Estas empresas depois de contarem com polpudos financiamnetos do pentagono, vao em bolsa e embolsam monetizacao recode que volta à familia Trump, como ja haviam denunciado a Pro Publica e a More Perfect Union.

A Anduril Industries representa uma mudança estrutural no paradigma tecnológico da guerra: em vez de tratar inteligência artificial, sensores, drones e sistemas de armas como componentes separados, a empresa procura integrá-los em uma arquitetura computacional distribuída, cujo núcleo é o Lattice. O sistema realiza fusão de dados provenientes de radares, câmeras, sensores, satélites e plataformas autônomas e transforma esses fluxos em uma representação operacional compartilhada do ambiente. Sua característica cientificamente mais relevante é a computação at the edge: parte substancial do processamento ocorre localmente, permitindo que sistemas continuem funcionando mesmo sob limitações de conectividade. Isso desloca a vantagem militar tradicional — baseada sobretudo em plataformas maiores, mais caras e centralizadas — para uma lógica de rede, autonomia, velocidade de decisão e coordenação máquina-máquina. A escolha do Exército americano pela Anduril como liderança para a camada comum de dados do Next Generation Command and Control mostra que o Lattice pode estar evoluindo de um simples produto para uma espécie de infraestrutura digital sobre a qual diferentes sensores, armas, aplicações e modelos de IA podem operar.

O aspecto mais profundo da Anduril, entretanto, não é tecnológico, mas epistemológico e jurídico: ela altera a relação entre percepção, decisão e força. Em sistemas militares convencionais, existe uma sequência relativamente nítida entre detectar um fenômeno, interpretá-lo, transmitir a informação, decidir e finalmente agir. Sistemas autônomos procuram comprimir radicalmente esse intervalo, fazendo com que algoritmos classifiquem objetos, priorizem ameaças e coordenem plataformas em escalas temporais incompatíveis com a cognição humana. O Anvil, por exemplo, já foi demonstrado como interceptor autônomo de drones, embora com comando humano para a execução da interceptação. A questão central passa, portanto, a ser onde permanece o ser humano dentro da cadeia de decisão letal. Quanto mais sistemas capazes de percepção, inferência e ação forem conectados em rede, maior será a possibilidade de uma guerra caracterizada por ciclos decisórios automatizados e por uma crescente dificuldade de atribuir causalidade individual às decisões. A Anduril simboliza, assim, algo maior que uma nova empresa de defesa: a transição da guerra industrial para uma guerra algorítmica, na qual poder militar depende cada vez menos apenas da quantidade de armas disponíveis e cada vez mais da capacidade de construir sistemas que percebam, aprendam, coordenem e atuem em velocidade superior à capacidade humana de intervenção.

A questão tecnológica, portanto, não é periférica. Ela está diretamente associada à transformação da capacidade militar. O próprio Exército vinculou o Detachment 201 à Army Transformation Initiative, cujo propósito declarado é tornar a força militar mais enxuta, inteligente e letal. Inteligência artificial pode ser utilizada para processar enormes quantidades de informações, identificar padrões, analisar imagens de satélite, integrar dados provenientes de sensores, auxiliar na logística, aperfeiçoar sistemas autônomos e apoiar decisões militares. Quanto mais sistemas automatizados participam da identificação de alvos, priorização de ameaças e planejamento operacional, maior se torna a necessidade de estabelecer limites sobre quem decide, quem supervisiona e quem responde pelos resultados produzidos por sistemas algorítmicos.

A composição da primeira turma também é reveladora. A Palantir possui longa relação com o governo e as Forças Armadas americanas. A empresa tornou-se um importante fornecedor de sistemas de dados e inteligência artificial para o setor de defesa. No caso da Meta, a mudança também é profunda. A empresa ampliou sua participação em aplicações militares e tecnologias de realidade virtual e aumentada. A OpenAI, por sua vez, tornou-se um dos principais atores do desenvolvimento contemporâneo de modelos avançados de inteligência artificial. Kevin Weil integrou a primeira turma do Detachment 201 e Bob McGrew, ex-chefe de pesquisa da companhia, também recebeu a patente militar.O resultado é uma intersecção inédita entre Big Tech, inteligência artificial, capital privado e poder militar.

É justamente aqui que aparece a principal questão de governança. Um executivo pode possuir simultaneamente responsabilidades perante uma empresa privada e perante o Estado. Isso não significa automaticamente que exista ilegalidade ou conflito de interesses. Mas cria uma questão institucional que precisa ser tratada com transparência: até que ponto uma pessoa que participa da formulação das necessidades tecnológicas do Exército pode simultaneamente ocupar posição de liderança ou aconselhamento em empresas que atuam no mesmo mercado?

A questão ganhou ainda mais importância porque o Exército informou em 2026 que existem salvaguardas éticas, incluindo divulgação financeira, treinamento anual e recusa obrigatória em assuntos que afetem os interesses financeiros dos integrantes do destacamento. Não se trata, portanto, de afirmar que exista conflito de interesses em cada caso individual. O ponto científico é outro: quanto maior a integração entre Estado e indústria tecnológica, maior precisa ser a arquitetura de transparência, accountability e controle público.

Em 10 de junho de 2026, o Exército americano incorporou uma segunda turma de executivos tecnológicos ao Executive Innovation Corps. Dane Knecht, CTO da Cloudflare; Sam Pullara, managing director e CTO da Sutter Hill Ventures; e Serkan Piantino, cofundador do Facebook AI Research e ex-vice-presidente de produtos do Reddit, foram comissionados como tenentes-coronéis. O próprio Exército afirmou que a primeira turma havia contribuído para questões como análise de dados da cadeia de suprimentos de munições, investimentos na base industrial militar e estratégias relacionadas a sistemas autônomos e tecnologias contra drones. Não estamos diante de uma experiência isolada de quatro executivos interessados em serviço público. O Exército está transformando o modelo em uma estrutura permanente de aquisição de conhecimento tecnológico.

Os Estados Unidos sempre tiveram uma relação profunda entre ciência, tecnologia e defesa. A própria história da internet, da computação, dos satélites e de diversas tecnologias estratégicas demonstra a importância dos investimentos militares na formação da infraestrutura tecnológica contemporânea.

O caso do Detachment 201 revela uma transformação estrutural: a fronteira entre indústria tecnológica e indústria de defesa está ficando cada vez mais porosa. Quanto mais decisões estratégicas dependem de tecnologias desenvolvidas por empresas privadas, maior deve ser a capacidade do Estado de fiscalizar contratos, algoritmos, critérios de aquisição e mecanismos de responsabilização. A segunda é jurídica. A incorporação de inteligência artificial aos sistemas de defesa exige discutir responsabilidade humana, proporcionalidade, distinção entre combatentes e civis e controle sobre sistemas autônomos. A terceira é epistemológica. Algoritmos não são neutros. Eles são construídos a partir de dados, modelos estatísticos, objetivos definidos por seres humanos e critérios de otimização. Um sistema que identifica “ameaças” está, necessariamente, operando segundo categorias previamente estabelecidas.

Mas a quarta e mais importante é geopolítica. Quando tecnologia e poder militar se tornam inseparáveis, a supremacia tecnológica passa a significar também supremacia estratégica. A imagem que circula nas redes sociais chama esses profissionais de “Digital Generals”. Essa denominação, porém, não é oficial. O nome utilizado pelo Exército é Executive Innovation Corps, ou Detachment 201. Uma metáfora reveladora de como uma industria que se capitalizou usando dados pessoais de forma muitas vezes subrepticia e com reiteradas violações de direitos humanos.

Talvez o futuro da guerra não seja comandado apenas por generais.Talvez seja cada vez mais moldado por aqueles que controlam os dados, os modelos de inteligência artificial, os sistemas autônomos e a infraestrutura computacional que define o que uma força militar consegue enxergar, prever e fazer. E, nesse cenário, a pergunta fundamental para as democracias não será somente quem possui as armas. Será também quem possui os algoritmos que hoje e cada vez mais terão impacto militar?

Luciana Bauer. Doutora em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e Doutora em Doctor of Law pela Widener University (EUA), ambos os títulos obtidos no período de 2021–2025; Mestre em Ciência Jurídica pela Univali e Master of Law pela Widener University (2019–2021); Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1997). Realiza pós-doutorado em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí e pela Pace University no ano de 2025-2026 onde desenvolve pesquisas na área que inaugura chamada Geopolítica do Clima: uma interface entre geopolítica e colapso climatico. Professora e palestrante nas áreas de Direito Constitucional, Direito Ambiental e Direitos Humanos com ênfase em Direito Climático, Justiça Climática, Direitos Intergeracionais, Democracia e Governança Climática Global. É autora dos livros Brazil and Climate Justice (2025); A Democracia Indiferente (1ª ed., Curitiba: Kotter, 2025); A Norma Climática (1ª ed., Curitiba: Kotter, 2025). Exerceu a magistratura federal por mais de vinte anos. Atualmente atua como advogada e é fundadora do Coletivo Climático JusClima, dedicado à pesquisa, à advocacia estratégica e à difusão do debate público qualificado sobre justiça climática e democracia.





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