Por Marcelo Santos*
“Pelos seus frutos os conhecereis.” A frase de Jesus, registrada no Evangelho de Mateus, ganhou contornos de advertência eleitoral nesta terça-feira (29). Em uma publicação nas redes sociais, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito decidiu confrontar o verniz religioso que Flávio Bolsonaro tenta vestir na reta final da campanha com os frutos que cercam sua trajetória pública.
O post não fala em pecados no sentido estritamente teológico. Faz algo mais incômodo: reúne fatos, denúncias e perguntas que atravessam justamente os valores que o candidato do PL diz representar. Fidelidade, honestidade, desapego ao dinheiro, respeito às instituições e compromisso com a verdade aparecem como uma espécie de exame público de consciência.
“É isso mesmo, meu irmão, minha irmã?”, pergunta a Frente logo na abertura. Em seguida, lista as novas revelações publicadas pelo PlatôBR e repercutidas por outros veículos. Mensagens, áudios, fotografias e documentos guardados por Alexandre Santini, ex-sócio e antigo amigo de Flávio, indicariam a participação do senador em festas privadas com garotas de programa; o recebimento de um Rolex de R$ 305 mil, comprado por um advogado próximo; despesas pessoais pagas por parceiros com interesses no governo de Jair Bolsonaro; e uma suposta intermediação junto ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, em favor de um cliente.
Flávio Bolsonaro, o advogado citado e Alexandre Santini foram procurados pelos veículos que divulgaram o material e, até a publicação das primeiras reportagens, não haviam se manifestado. O gabinete de Kassio Nunes Marques afirmou que o ministro recebe parlamentares de diferentes partidos sem comprometer sua imparcialidade.
A Frente não antecipa sentença nem substitui tribunal. O que faz é recordar que uma candidatura à Presidência da República não pode se esconder atrás de uma Bíblia aberta, de uma oração bem ensaiada ou de fotografias em cultos. Quem reivindica para si o voto cristão assume também a obrigação de responder àquilo que o próprio Evangelho cobra: coerência entre discurso e vida, responsabilidade com o dinheiro e verdade diante do povo.
O texto também recupera o caso das rachadinhas no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2020, o Ministério Público fluminense denunciou o então deputado por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. A investigação teve como personagem central Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, cuja conta havia registrado movimentações consideradas atípicas pelo Coaf.
Parte do dinheiro, segundo a acusação, teria sido lavada por meio de uma loja de chocolates. O questionamento chega justamente quando Flávio tenta reforçar sua identidade evangélica e apagar o desgaste provocado pela crise envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
A publicação da Frente de Evangélicos, disponível neste link, termina com uma pergunta direta: “Vamos deixar um candidato com tantos escândalos ser presidente do nosso país?”.
*Marcelo Santos é jornalista
