Minha avó, a Dona Deda, era mãe de santo, iniciada no xambá pernambucano, e devota de Nossa Senhora do Carmo. No Rio de Janeiro, aproximou-se das umbandas também. Minha infância foi assombrada pelo rufar dos tambores brasileiros e pelo alumbramento com os caboclos de pena, os marujos e boiadeiros. Aprendi primeiro a ouvir o tambor. Depois, me apaixonei pelas palavras.
Desde menino conversei com mortos mais vivos que muitos vivos que andam mortos: recebi ordens de Seu Tranca Ruas; vi Tupinambá lançar flechas no tempo; fui seduzido pela beleza da Cabocla Mariana; temi a presença de Seu Caveira; cantei a delicadeza da pedrinha miudinha; respeitei o cachimbo de Pai Joaquim; me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão.
Me encantei pela Uiara, reverenciei o caboclo Japetequara , fui reverente aos que correram gira pelo norte e me emociono com os santos brasileiros. Vejo o mapa do Brasil no cocar de Sete Flechas e no diadema estrelado da sucuri-jibóia no limiar das luas.
Por tudo isso, essa campanha eleitoral não é corriqueira para mim. Tenho responsabilidade com a memória da minha avó e com o futuro do meu filho. Minha percepção do enfrentamento com o ódio da extrema-direita e a opção por Lula talvez seja diferente, e não menos legitima, dos que não beberam da água que mata a minha sede.
Não tenho exatamente esperança messiânica em um candidato. Mas tenho uma cimitarra, uma cortina de mariô, uma quartinha velha com água fresca, uma pena vermelha de ekodidé, quarenta caroços de dendê, meus assentamentos , meus fios de contas,meus filás, meu abadá, búzios, conchas do mar, estátuas da Virgem Maria, de São Jorge, de Santo Antonio, um escapulário antigo, a medalha de São Bento e a memória dos meus avós.
É o suficiente para que eu saiba como me posicionar. Não envergonharei minha linhagem e não decepcionarei o tambor, em cujo couro me aconcheguei desde que vi a imensidão do mundo.
Estou em paz, minha avó. Estamos em guerra, meu pai.
