Enquanto entidades do setor produtivo projetam crise e caos com o fim da jornada 6×1 no mercado de trabalho, dados de um estudo inédito realizado pela consultoria econômica Germinal revelam o oposto: criação de empregos, ganhos de produtividade, redução de desigualdade, aumento no PIB e efeito multiplicador de consumo estão entre os impactos positivos mapeados na pesquisa.
Os dados do estudo detalham o cenário de Santa Catarina, mas podem ser extrapolados para a análise nacional, segundo um dos autores da pesquisa. “A tendência é que os mesmos resultados do estudo para Santa Catarina se repitam em escala nacional, com poucas variações”, explica Maurício Mulinari, economista, pesquisador e um dos autores da análise.
A Fecomércio e a Fiesc, setores representantes do comércio e da indústria, divulgaram estudos projetando aumento do custo de trabalho, risco de extinção de emprego e impacto negativo no PIB regional, além de alertarem para a vulnerabilidade de negócios menores, nas micro e pequenas empresas. Os dados foram rebatidos na pesquisa “Potenciais Impactos Socioeconômicos do Fim da Escala 6×1 em Santa Catarina”.
As projeções da consultoria “Germinal: economia e política do trabalho” partem dos microdados do PNAD Contínua, do IBGE, fonte primária para analisar as jornadas efetivas de trabalho. Estudos internacionais sobre produtividade no trabalho, dados do setor externo para verificar a sensibilidade na importação e exportação e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) são também utilizados para desenhar um cenário que é exatamente oposto ao que vem sendo tratado num tom de terrorismo pelo mercado.
“Na realidade a redução na lucratividade dos empregadores é mínima e ocorrerá de forma desigual entre setores. Os mais afetados serão os empresários mais atrasados, aqueles com menor capacidade de reagir às mudanças da jornada com a reorganização do trabalho”, pontua Mulinari. O aumento da massa salarial, seja pela criação de novos postos, seja pelo pagamento de horas extras, e o efeito multiplicador do consumo são analisados sob uma ótica otimista de crescimento do PIB.
Segundo o levantamento, essa reorganização do trabalho não deve ser impactada por cortes de emprego, o que incidiria na produção, mas por criação de novos postos e pagamento de horas extras. Além disso, entende-se que a produtividade do trabalhador menos fatigado aumenta, o que tende a impactar positivamente a produção.
A análise também se ampara na Matriz de Contabilidade Social, que seria uma forma de avaliar a circulação de dinheiro: uma vez que o salário é pago, o trabalhador consome, o setor de indústria e de serviços passa a produzir mais, gera mais arrecadação e funciona como uma espécie de ciclo.
“Do ponto de vista geral da economia, a medida é amplamente positiva, pois toda forma de redução da jornada de trabalho acaba por obrigar as empresas a diminuírem sua dependência da pura exploração da força de trabalho e ampliarem investimentos em inovação e tecnologia”, analisa.
Dados projetados
O estudo prevê que a medida impactaria 1,25 milhão de trabalhadores catarinenses, cerca de metade dos empregados formais ou 20% de toda a população adulta do estado. Ainda, indica que a maior parte dos beneficiados pela redução de jornada são de famílias com renda de até dois salários mínimos por pessoa: três a cada quatro compõem esse grupo.
A população negra, mulheres e pessoas com baixa escolaridade são as parcelas da sociedade com maior impacto da mudança, o que indica que o fim da jornada 6 por 1 também acaba reduzindo desigualdades sociais. O estudo prevê que 40% dos mais pobres teriam ganhos de renda, enquanto os 10% mais ricos sentiriam efeitos nulos ou irrisórios.
“De um lado, o setor empresarial quer transformar ao máximo o tempo de vida dos trabalhadores em tempo de trabalho para o capital, para o enriquecimento privado. De outro lado, os trabalhadores querem retomar o tempo para si, para uma vida além do trabalho, junto às suas famílias ou em atividades de lazer”, analisa Mulinari.
A análise também tem a autoria do pesquisador Vicente Heinen, que está produzindo uma dissertação de mestrado sobre a temática, em nível nacional. Os dados indicam que as empresas terão aumento de custos médio da ordem de cerca de 1%, o que pode impactar os preços e a inflação.
Na análise, esse custo é entendido como moderado, ao contrário do que justificam as entidades empresariais. Tecnicamente, os efeitos seriam semelhantes à política de valorização do salário mínimo. Por isso, na avaliação dos pesquisadores o que está em disputa é a compreensão de que as projeções catastróficas não são fundamentadas nos dados empíricos, mas manejadas de modo a preservar a rentabilidade do capital e os dividendos.
“A história mostra que a classe dominante nunca foi convencida de medidas nesse sentido. A pauta dos trabalhadores só avançou com base em mobilização e pressão política, não em convencimento. A disputa do convencimento se dá na sociedade em geral, e hoje as pesquisas demonstram que a ampla maioria da população brasileira deseja o fim da escala 6×1″, diz Mulinari.
Na indústria catarinense, os principais impactos da redução de jornada seriam sentidos na indústria têxtil e metal-mecânica, seguida do setor de transportes. Bares, restaurantes, similares e o setor da saúde também sentiriam impacto positivo ou com a redução da jornada direta ou com sua substituição pelo pagamento de hora extra. Com relação à criação de empregos, seriam 24 mil na indústria, 20 mil no comércio e 17 mil nos serviços.
A pesquisa destacam que em áreas como serviços prestados às famílias, indústrias alimentícias e o setor de energia, os benefícios gerados pelo aumento da demanda tendem a compensar ou até superar os custos adicionais com a folha salarial.
O fim da jornada 6 x 1 é uma das apostas do Governo Federal para este ano e vem sendo analisado de forma negativa pelo mercado e pela classe política situada à direita no espectro ideológico. Os dados da pesquisa que destoa do tom das entidades patronais sugerem que está em disputa um processo de ruptura com com uma lógica de exploração na busca de um modelo econômico dinâmico e mais justo.
