Início BRASIL Entenda a trama envolvendo o Master que levou Vorcaro novamente à prisão

Entenda a trama envolvendo o Master que levou Vorcaro novamente à prisão

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A nova prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nesta quarta-feira (4), determinada na terceira fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, recoloca no centro do debate a derrocada do Banco Master e a suspeita de que o colapso da instituição não foi fruto de má gestão pontual, mas de um modelo estruturado para inflar ativos, sustentar liquidez artificial e movimentar recursos por uma complexa teia financeira.

A ofensiva foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e incluiu dezenas de mandados de busca e apreensão em cinco estados, além do bloqueio e sequestro de R$ R$ 22 bilhões em bens. As investigações apuram indícios de organização criminosa, gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.

Vorcaro já havia sido preso na primeira fase da operação, em novembro do ano passado, e solto 11 dias depois, sob monitoramento eletrônico. Agora, a apuração avança sobre familiares, empresários próximos e até servidores ligados à estrutura de fiscalização do sistema financeiro.

Engenharia financeira sob suspeita

O crescimento acelerado do Master chamou atenção ao oferecer CDBs com remuneração de até 140% do CDI — muito acima da média de mercado. A estratégia atraiu milhares de investidores e elevou rapidamente o volume de captação.

O problema, segundo investigadores, estava no descompasso entre passivos e ativos: o banco assumia obrigações de curto prazo enquanto suas receitas dependiam de operações de longo prazo, criando uma pressão constante por liquidez.

A suspeita central é que parte dessa engrenagem era sustentada por um ciclo financeiro circular. O modelo funcionaria assim: o banco concedia empréstimos a empresas, que aplicavam os recursos em fundos ligados à gestora Reag. Esses fundos realizavam transações sucessivas entre si, reavaliando ativos de baixo valor com valorizações contábeis expressivas — em um caso, superior a 10 milhões por cento, segundo o Ministério Público Federal.

Ao fim do percurso, parte do dinheiro retornaria ao próprio Master, na forma de novas aplicações em CDBs. Para os investigadores, tratava-se de um circuito que ajudava a inflar balanços e reforçar artificialmente indicadores de capitalização.

Da crise de liquidez ao risco sistêmico

Desde 2024, o Banco Central do Brasil monitorava a situação do Master, apontando crise aguda de liquidez. A instituição chegou a suspender o depósito de compulsórios, sinal de forte deterioração financeira.

O rombo estimado é de R$ 41 bilhões — valor equivalente a cerca de um terço dos recursos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Hoje, aproximadamente 1,6 milhão de investidores aguardam ressarcimento, cujo cronograma, segundo as autoridades, não é afetado pela operação policial.

Em março do ano passado, Vorcaro tentou vender a instituição ao Banco de Brasília (BRB). A operação, estimada em R$ 12,2 bilhões e baseada na venda de carteiras de crédito, acabou vetada pelo Banco Central em setembro. A primeira fase da Compliance Zero investiga se títulos falsos teriam sido usados para inflar o balanço na tentativa de viabilizar o negócio.

Às vésperas da operação policial de 2024, houve ainda uma tentativa de venda à Fictor, que à época alegava contar com recursos de investidores estrangeiros.

Rede de contatos e suspeitas ampliadas

A terceira fase da operação amplia o foco para além do banco. As investigações apuram movimentações envolvendo familiares de Vorcaro — entre eles o pai, a irmã e o cunhado — e empresários considerados próximos ao ex-banqueiro.

Os investigadores também miraram a estrutura de supervisão financeira. Segundo informações da coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, também foram alvos de busca o ex-diretor de fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e o servidor Bellini Santana. Ambos já haviam sido afastados administrativamente e agora foram alvo de decisão judicial.

Souza comandou a diretoria de fiscalização entre 2019 e 2023, período em que foi autorizada a compra do Banco Máxima por Vorcaro — instituição posteriormente rebatizada como Banco Master. A apuração busca esclarecer se houve falhas ou irregularidades nos processos de supervisão. Lembrando que, na época, o presidente do BC era Roberto Campos Neto, alçado ao posto pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL).

Em decisões anteriores, o ministro Dias Toffoli mencionou indícios de “aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação”.

O que dizem as defesas

A defesa de Vorcaro afirma que ele tem colaborado com as autoridades e nega que o banco tenha realizado operações para beneficiar familiares ou terceiros. Sustenta ainda que aportes pessoais foram feitos para reforçar a instituição até sua liquidação extrajudicial.

A Reag declarou que não controla empresas mencionadas nas investigações e que as operações de crédito estruturado seguem práticas usuais de mercado.

Um caso além do colapso bancário

Para o Ministério Público Federal, os elementos reunidos indicam possível estrutura organizada que se estenderia por anos, e não apenas uma sequência de decisões equivocadas diante de uma crise de liquidez.

Se confirmadas as suspeitas, o caso Master pode se consolidar como um dos mais relevantes episódios recentes do sistema financeiro brasileiro — não apenas pelo tamanho do rombo, mas pela complexidade do modelo investigado e pela eventual interseção entre mercado, fundos de investimento e órgãos de fiscalização.

A nova prisão de Vorcaro, nesse contexto, não é um ponto fora da curva, mas parte de uma trama mais ampla e complexa.





ICL Notícias

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