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Empresa de André Mendonça faturou R$ 10,4 milhões em um ano

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Por Igor Mello

O Instituto Iter, empresa de cursos e palestras fundada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), faturou R$ 10,4 milhões apenas no ano de 2025, mostram documentos contábeis obtidos pelo Núcleo Investigativo do ICL Notícias. Na manhã desta quinta-feira (3), Mendonça anunciou que irá se desvincular da companhia.

Mendonça e a esposa são os principais acionistas da empresa, fundada em novembro de 2023, ao lado de pessoas que tiveram relação com Mendonça durante sua trajetória no poder público. Dois dos sócios são assessores do ministro no STF e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A imagem de Mendonça é utilizada abertamente pela empresa para a venda de cursos e palestras. O ministro participa de diversas atividades como professor. Segundo o Instituto Iter, a administração é feita por Victor Godoy Veiga, um dos acionistas da empresa e ex-ministro da Educação no governo Bolsonaro, do qual Mendonça também fez parte.

Site do Instituto Iter usa imagem de Mendonça para vender curso
Site do Instituto Iter usa imagem de Mendonça para vender curso (Crédito: Reprodução)

A Lei Orgânica da Magistratura permite que membros do Judiciário desempenhem funções remuneradas de ensino. O conjunto de normas –que não se aplica diretamente aos ministros do STF– também permite que magistrados sejam acionistas ou cotistas de empresas, mas veda que os integrantes do Judiciário atuem como dirigentes ou administradores em negócios privados.

Conforme revelou o jornalista Paulo Motoryn em sua newsletter Noites Húngaras nesta semana, foi na sede do Instituto Iter, em São Paulo, que Mendonça realizou um encontro fora da agenda com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O encontro ocorreu em 14 de março de 2025 e, segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal no telefone de Vorcaro, interlocutores já tinham informado ao ministro da “situação do Banco Central toda”. Na ocasião, o Master era alvo de investigações no Banco Central, que culminaram na liquidação da instituição financeira meses depois, em novembro.

Em fevereiro deste ano, Mendonça assumiu a relatoria do Caso Master no STF. O ministro nunca havia tratado publicamente de qualquer relação que pudesse ter mantido com Vorcaro ou interlocutores enviados pelo banqueiro.

Recursos privados para instituto de André Mendonça

Os documentos contábeis obtidos pelo ICL Notícias não detalham a fonte das receitas recebidas pelo Instituto Iter em 2025. No entanto, um cruzamento de dados permite concluir que parte considerável dos recursos veio da iniciativa privada.

A reportagem levantou todos os 68 contratos firmados entre o Instituto Iter e órgãos públicos por meio do Portal Nacional de Contratações Públicas. Com base nessas informações, é possível constatar que a empresa de Mendonça havia firmado, desde a fundação até o fim de 2025, R$ 5 milhões em contratos com entes governamentais.

Mesmo que a totalidade desses valores tenha sido recebida durante o ano de 2025, mais da metade das receitas totais do Instituto Iter –R$ 5,4 milhões dos R$ 10,4 milhões declarados formalmente às autoridades– precisam ter origem privada. A empresa não informa quem são os clientes privados que mantém. O ICL Notícias pediu a relação desses contratantes tanto ao Instituto Iter, quanto a André Mendonça, mas não teve resposta.

A empresa divulga em seu site 12 cursos. Em um calendário para 2026 estava prevista a realização de 16 atividades até o fim de agosto. A grande maioria são eventos curtos, entre dois e quatro dias de atividades.

Os três MBAs oferecidos pela instituição custam R$ 27,5 mil, divididos em 18 mensalidades.

Iter teve lucro de R$ 285 mil

Apesar do volume de receitas, a empresa de André Mendonça declarou ter tido um lucro de apenas R$ 285 mil no exercício de 2025. O valor se justifica pelo alto valor de despesas declaradas pela empresa, que chegam a R$ 8,1 milhões.

Parte considerável dos custos da empresa foi declarada em rubricas genéricas, que não permitem saber claramente o destino dos recursos. A empresa declara um gasto de R$ 1,4 milhão com viagens e outros R$ 1,4 milhão em despesas com pessoal.

Custos fixos como água, energia elétrica, telefone e material de escritório –inseridos na rubrica de despesas gerais– somaram outros R$ 258 mil.

A maior parte dos gastos da empresa de Mendonça foram classificados como serviços tomados de pessoas jurídicas, em um total de R$ 4,1 milhões. São elencadas diversas atividades, como advocacia, contabilidade, consultoria, transporte, além de sistemas e monitoramento.

Fora todas essas atividades, o Instituto Iter declara um custo total de R$ 3,2 milhões em duas rubricas genéricas: serviços prestados por terceiros somam R$ 1,89 milhão, enquanto serviços administrativos representam outros R$ 1,3 milhão.

Outro ponto chama atenção nas informações prestadas pela empresa de Mendonça. A companhia registra ter tomado mútuos de R$ 5,79 milhões. Contratos de mútuo funcionam como empréstimos feitos por fora do sistema financeiro, com recursos fornecidos por pessoas ou empresas através de contratos particulares entre as partes.

O valor é maior do que todos os ativos que a empresa de Mendonça possui. Na avaliação de fontes com conhecimento do mercado financeiro, a situação faz com que o Instituto Iter dificilmente seja elegível para crédito no mercado financeiro tradicional.

Negócios depois da chegada ao STF

André Mendonça mergulhou na atividade empresarial depois que assumiu uma das 11 cadeiras no STF, nomeado por Jair Bolsonaro. O ministro tomou posse em dezembro de 2021.

A primeira empresa associada a ele foi fundada só no ano seguinte e tem íntima relação na estrutura societária do Instituto Iter.

O ministrou fundou ao lado da esposa Janey Mendonça a empresa Integre Cursos e Pesquisa em Estado de Direito e Governança Global em maio de 2025.

O Instituto Iter foi criado em novembro de 2023. O casal Mendonça ficou com 77,5% das ações por meio da empresa Integre Cursos. Os outros sócios guardavam relação de proximidade com o ministro durante sua trajetória no poder público.

Victor Godoy Veiga, que acumula o posto de CEO da empresa, foi colega de Mendonça no governo Bolsonaro, onde atuou como secretário-executivo do Ministério da Educação (MEC) a partir de 2020, na gestão Milton Ribeiro –também pastor evangélico, Ribeiro contou com o lobby de Mendonça para assumir o cargo.

Após Milton Ribeiro ser demitido em meio a denúncias de corrupção, Godoy assumiu o posto de ministro da Educação.

Danilo Dupas Ribeiro exerceu cargos no MEC e chegou a comandar o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) durante o governo Bolsonaro.

Os outros dois sócios são assessores diretos de Mendonça: Rodrigo Sorrenti Hauer Vieira é o chefe de gabinete de Mendonça no STF, enquanto Tercio Issami Tokano é assessor do gabinete do ministro no TSE.

André Mendonça com Rodrigo Sorrenti Hauer Vieira, seu chefe de gabinete no STF e sócio, durante a inauguração do Instituto Iter, em 2024 (Crédito: Divulgação/ Iter)

O ICL Notícias questionou o ministro a respeito de eventuais conflitos de interesse em manter uma relação societária com dois assessores nomeados em cargos de confiança.

Também questionou ao Instituto Iter se eles mantinham alguma relação de subordinação a Mendonça ou a esposa dele na empresa, bem como se desempenham alguma função no dia a dia do negócio. O Instituto Iter não respondeu a esses questionamentos.

Instituto virou sociedade anônima

O Instituto Iter foi fundado inicialmente como uma Sociedade Empresária Limitada, o modelo mais comum para pessoas jurídicas no Brasil. Contudo, em novembro de 2024 a empresa foi transformada em uma Sociedade Anônima –popularmente conhecidas como SAs.

Como os sócios não são divulgados publicamente, é possível trazer novos investidores, retirar sócios do negócio ou alterar a participação de cada sócio sem que haja escrutínio público por meio de informações divulgadas pela Receita Federal.

Foi sob esse regime que a empresa firmou grande parte de seus contratos com o poder público e obteve o faturamento de R$ 10,4 milhões em 2025.

De acordo com o levantamento feito pelo ICL Notícias no Portal Nacional de Contratações Públicas, o Instituto Iter fechou 68 contratos com entes públicos –como prefeituras, órgãos estaduais, tribunais de contas e tribunais de Justiça– desde que foi fundado, acumulando um valor de R$ 11,47 milhões em contratos.

Desse total, R$ 11 milhões foram assinados depois da transformação da empresa do ministro em sociedade anônima.

Mendonça anuncia saída da sociedade

Na manhã desta quinta-feira (3), Mendonça divulgou uma nota pública afirmando que se afastará do Instituto Iter. O anúncio veio depois da divulgação de que a empresa havia firmado dezenas de contratos públicos.

De acordo com o texto, “o ministro André Mendonça decidiu deixar a sociedade do Instituto Iter, cedendo a totalidade de suas cotas e de sua esposa, sem qualquer contrapartida financeira. As cotas, e eventuais valores a elas correspondentes, permanecerão integralmente destinados a fins sociais e educacionais, conforme o ministro já havia decidido e anunciado no início deste ano”.

Ainda segundo a nota, embora se afaste da sociedade, o ministro seguirá atuando como professor e palestrante nas atividades desenvolvidas pelo Instituto Iter.

“A decisão foi tomada em 2 de setembro de 2026, quando o ministro, em conversa com o presidente do Instituto, Victor Godoy, orientou que se tomassem as providências necessárias nos termos aqui descritos. Nessas condições, o ministro permanecerá prestando serviços exclusivamente acadêmicos, na qualidade de professor”, completa Mendonça.

Nem o ministro, nem o Instituto Iter informaram como serão redistribuídas as cotas pertencentes à Integre Cursos –empresa de Mendonça e da esposa, nem se os assessores do ministro permanecerão como sócios na nova configuração.

Ministro não responde aos questionamentos do ICL Notícias

O ICL Notícias enviou oito perguntas para o Instituto Iter sobre as informações contidas nos documentos contábeis, a captação de clientes públicos e privados, eventuais conflitos de interesse com a atuação de Mendonça no Judiciário e sobre a atuação dos assessores do ministro na empresa.

Não houve resposta direta a nenhum dos questionamentos. O Instituto Iter enviou a seguinte nota:

“O Instituto Iter comunica que o Ministro André Mendonça decidiu doar a integralidade de suas quotas e deixará o quadro societário da instituição. O Ministro já havia anunciado no início deste ano que qualquer lucro ou dividendo referente às suas quotas, quando ocorressem, seriam destinados a obras sociais e educacionais. Registramos que, ao longo dos dois anos de atividade do Instituto Iter, não houve qualquer distribuição de lucros ou dividendos. 

O Instituto Iter nasceu de um sonho e de um propósito: formar líderes e gestores de excelência, com preparo técnico, visão pública e compromisso ético. Esse propósito não se altera. O Instituto segue sendo a instituição idealizada e fundada pelo Ministro André Mendonça, com o compromisso de seguir na mesma missão e com os mesmos valores. 

Nesses dois anos de atuação, os cursos, eventos, contratos públicos e privados bem como todas as ações institucionais do Instituto Iter observaram a legislação aplicável e regras de boa governança e conformidade. O reconhecimento do trabalho do Iter é público e notório. Nossas atividades registram avaliações consistentemente elevadas, resultado do trabalho de um corpo docente qualificado e de uma equipe comprometida com a excelência. 

Sobre as contratações por órgãos e entidades públicas, cabe informar o regime que a elas se aplica. Cursos e programas de formação são serviços técnicos especializados de natureza predominantemente intelectual, hipótese em que a Lei nº 14.133/2021 admite a contratação direta por inexigibilidade de licitação. A razão é objetiva: programas de formação não são intercambiáveis. Cada um tem concepção pedagógica, conteúdo e corpo docente próprios, e não há como submeter a disputa de preço aquilo que não é comparável entre si. O corpo docente do Instituto Iter reúne profissionais de reconhecida trajetória em suas áreas, e é essa qualificação que fundamenta a escolha. Em todos os casos, a decisão sobre a modalidade de contratação é do órgão contratante, que instrui o processo com parecer jurídico próprio, justificativa de preço e autorização da autoridade competente, e o divulga de forma pública e transparente para toda a sociedade. 

A direção executiva do Instituto Iter é exercida por Victor Godoy, ex-ministro da educação e auditor de carreira licenciado da Controladoria-Geral da União, com mais dezoito anos de experiência na avaliação da boa e regular aplicação de recursos públicos. 

As atividades educacionais do Iter prosseguirão normalmente, no mesmo padrão de qualidade e profissionalismo. A programação de cursos, eventos e projetos está integralmente mantida, assim como os compromissos assumidos com alunos, professores, parceiros e instituições. 

O Instituto Iter agradece a confiança que recebe e permanece à disposição da imprensa e da sociedade para as informações que se fizerem necessárias”.

A reportagem também enviou 12 perguntas ao ministro André Mendonça sobre sua participação na empresa, na captação de clientes, eventuais conflitos de interesse e sobre possíveis pagamentos de despesas pessoais pelo Instituto Iter. Não houve resposta até o momento. O espaço segue aberto.

 





ICL Notícias

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