Por Cleber Lourenço
Em apenas 72 horas depois do primeiro turno, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou uma reorganização de sua comunicação, com treinamentos de militantes, reuniões com influenciadores, mudanças nas redes sociais do candidato e ampliação de plataformas digitais de mobilização. A movimentação começou na segunda-feira (5), um dia depois da votação, e ganhou força até quarta-feira (7), quando Lula passou a gravar vídeos selfie e incorporou jovens parlamentares às discussões sobre a estratégia digital.
A mudança ocorre após o resultado do primeiro turno e diante de críticas internas à comunicação da candidatura. Em reunião com aliados, Lula chegou a afirmar que participava da campanha menos organizada de sua trajetória desde 1989.
Na noite de segunda-feira, militantes já participavam de uma oficina sobre como dialogar com eleitores, atuar em discussões políticas nas redes sociais e organizar a mobilização para o segundo turno, segundo informações obtidas pelo ICL Notícias. A atividade mostra que a reorganização não ficou restrita às reuniões da cúpula da campanha e começou a chegar à militância logo depois da votação.
Ao mesmo tempo, ganharam visibilidade plataformas digitais desenvolvidas por apoiadores para reunir dados eleitorais, disponibilizar vídeos e organizar atividades. Parte dessas ferramentas funciona independentemente do PT, enquanto outras integram a estrutura de comunicação da candidatura e já estavam em operação antes do segundo turno.
Lula troca vídeos produzidos por gravações de celular
A mudança mais visível ocorreu na quarta-feira, quando Lula começou a publicar vídeos gravados em formato selfie, segurando o próprio celular e falando diretamente para a câmera.
Até então, o presidente resistia ao formato, apesar dos pedidos de aliados e da primeira-dama, Janja da Silva. Durante um encontro com jovens parlamentares, Lula contou que era frequentemente incentivado a fazer gravações desse tipo, mas não gostava da ideia.
A nova abordagem passou a privilegiar vídeos verticais, falas diretas e temas políticos do momento, em contraste com parte das produções mais elaboradas utilizadas anteriormente.
Em uma das gravações, Lula abordou a proposta de acabar com a escala de trabalho 6×1 e cobrou um posicionamento de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em outras, convocou apoiadores a intensificar a mobilização nas ruas.
Segundo levantamento divulgado pelo Correio Braziliense nesta quinta-feira (8), o primeiro vídeo selfie ultrapassou 23,5 milhões de visualizações. Ao longo de quarta-feira, o presidente publicou nove vídeos nesse formato.
A reformulação também envolve a escolha dos assuntos. Jovens parlamentares passaram a participar das discussões sobre conteúdos e formatos, defendendo maior presença de temas concretos do cotidiano na comunicação eleitoral.
Influenciadores e parlamentares entram na reorganização
Na quarta-feira, Lula reuniu parlamentares eleitos e reeleitos com forte presença nas redes sociais. Entre os nomes envolvidos nas discussões estão Ana Elisa (PT-MG), Erika Hilton (PSOL-SP), Rick Azevedo (PSOL-RJ), Guilherme Cortez (PSOL-SP) e Pedro Rousseff (PT-MG).
A campanha passou a buscar maior participação desses políticos na produção e divulgação de conteúdos, aproveitando a experiência adquirida por eles durante suas próprias campanhas eleitorais.
Ana Elisa, eleita deputada federal aos 21 anos, tornou-se um dos nomes associados à reorganização. Com milhões de seguidores, a parlamentar participou de conversas sobre comunicação digital e apareceu ao lado do presidente em atividades do segundo turno.
A discussão também chegou ao conteúdo das mensagens. Parlamentares defenderam que a campanha reduzisse a dependência de referências à trajetória de Lula e apresentasse mais propostas para os próximos quatro anos.
Fora da estrutura partidária, influenciadores de entretenimento, humor e comportamento também passaram a declarar apoio à candidatura ou ampliar suas manifestações políticas.
Entre os nomes que publicaram conteúdos sobre a eleição estão Doarda, Ciclopin, Sofia Santino e Victor Han. As manifestações ocorreram em perfis que normalmente não têm a política como assunto principal.
Outro movimento surgiu entre comunidades de fãs de artistas internacionais. Cerca de 500 fã-clubes passaram a participar de uma mobilização identificada pela hashtag #FandomsComLula, segundo números divulgados pelos organizadores. As páginas reuniriam aproximadamente 20 milhões de seguidores, embora esse total não corresponda necessariamente a pessoas diferentes.
A iniciativa começou de maneira independente, e Lula chegou a enviar uma mensagem de agradecimento aos participantes. O apoio dos fã-clubes, porém, não significa que os artistas representados por essas comunidades tenham aderido à candidatura.
Plataformas digitais ampliam as ferramentas de mobilização
A reorganização também envolve um conjunto de sites que oferecem desde materiais de comunicação até mapas eleitorais e informações sobre atividades presenciais.
Uma das iniciativas mais recentes é o Radar da Virada, desenvolvido por apoiadores e apresentado como uma central de acompanhamento de narrativas eleitorais. A plataforma reúne vídeos, referências a assuntos em circulação nas redes e links para outras ferramentas digitais.
O site Dá pra Virar, criado de forma independente por Daniel Sobreira, utiliza dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para apresentar resultados do primeiro turno, mapas, informações municipais e comparações de propostas.
Outra iniciativa é o Onde dá pra conversar, que organiza resultados eleitorais por seção e local de votação. A ferramenta permite consultar a distribuição territorial dos votos e informações agregadas sobre comparecimento e abstenção.
Os dois projetos declaram não possuir vínculo formal com a campanha ou com partidos políticos.
Já o Porta-Vozes do Lula faz parte da estrutura oficial de mobilização do PT. Lançado em junho, o sistema reúne participantes em comunidades digitais, distribui conteúdos e organiza atividades por meio de missões e rankings.
Segundo dados divulgados pelo partido nesta semana, a plataforma alcançou 225 mil inscritos e registrou 50 milhões de mensagens lidas. Os indicadores são apresentados pela própria legenda e não foram auditados independentemente.
O Pode Espalhar também integra essa estrutura de comunicação. Além de disponibilizar vídeos, cards e outros materiais, mantém uma página de inscrição para porta-vozes interessados em participar de atividades e receber conteúdos.
A plataforma oferece oficinas de comunicação sobre WhatsApp, Instagram, Facebook, YouTube, TikTok, Kwai e utilização de inteligência artificial para produzir textos, imagens e áudios.
Outras iniciativas independentes incluem o Fura Bolha, que disponibiliza vídeos para compartilhamento, e o Em Frente, que reúne um calendário de atividades presenciais de mobilização.
Essas iniciativas não surgiram todas depois do primeiro turno. Parte delas já funcionava durante a primeira etapa da eleição. O movimento recente combina o aproveitamento dessas estruturas com o surgimento de novas ferramentas independentes e a intensificação das atividades de comunicação.
Janones mobiliza milhões pelo WhatsApp
Outra frente de mobilização é liderada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que transformou um canal de WhatsApp chamado Exército do Lula em um espaço de distribuição de conteúdos e organização de apoiadores.
Segundo a Folha de S.Paulo, o canal passou de aproximadamente 50 mil integrantes para mais de 2 milhões em menos de dois dias.
Janones afirmou que iniciou a movimentação por conta própria, sem esperar uma orientação da coordenação oficial. O deputado também defende mudanças na maneira de apresentar Lula nas redes, com maior presença de gravações simples e situações cotidianas.
A iniciativa ocorre paralelamente às discussões da campanha sobre uma comunicação menos institucional e maior participação de influenciadores.
Mudanças também chegam à coordenação
A reorganização digital acontece em meio a alterações nas responsabilidades de integrantes da campanha.
O governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), passou a atuar nas discussões sobre comunicação, enquanto Camilo Santana (PT-CE) e Rui Costa (PT-BA) receberam atribuições relacionadas à coordenação política e à agenda eleitoral.
A campanha também iniciou consultas a parlamentares com forte presença nas redes para definir conteúdos e formatos de publicação.
As mudanças ocorreram depois de Lula criticar publicamente a organização do primeiro turno. Na segunda-feira, durante reunião com aliados, Rafael Fonteles já havia sugerido ao presidente que adotasse vídeos selfie. Na ocasião, Lula ainda demonstrava resistência à mudança.
Dois dias depois, o formato passou a aparecer nos perfis oficiais do candidato.
Apesar da movimentação, ainda existem divergências internas sobre a condução da campanha e a distribuição de responsabilidades. A reorganização digital tampouco significa que todas as iniciativas de apoiadores estejam subordinadas a uma mesma coordenação.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a campanha trabalha para ampliar a produção de conteúdos e a participação de aliados nas redes, enquanto plataformas independentes seguem desenvolvendo ferramentas próprias. Novas atividades e iniciativas estão em preparação, mas seus formatos e datas ainda dependem de confirmação.
