Por Felipe Rabioglio
O democrata James Talarico, de 37 anos, conquistou uma vitória histórica nas eleições legislativas dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), ao derrotar o republicano Ken Paxton, apoiado pelo presidente Donald Trump, na disputa pelo Senado no Texas. Primeiro democrata eleito para o cargo pelo estado desde 1988, o político já havia chamado a atenção dos brasileiros seis anos antes, mas por um motivo bem diferente: seu sobrenome.
Em novembro de 2020, quando ainda era deputado estadual, Talarico descobriu que seu nome estava circulando nas redes sociais brasileiras. A explicação estava no significado popular da palavra “talarico”, usada no Brasil para se referir a alguém que se envolve com a pessoa comprometida de outra.
Surpreso com a repercussão, o americano decidiu entrar na brincadeira. Em uma publicação no X, antigo Twitter, afirmou que estava viralizando no Brasil e prometeu aos internautas que não roubaria a namorada de ninguém.
“Estou viralizando no Brasil agora… Aparentemente, ‘talarico’ é uma gíria brasileira para ‘ladrão de mulher’. Olá, Brasil! Estou apenas fazendo boas políticas públicas aqui no Texas. Prometo que não vou roubar sua namorada”, escreveu, em tradução livre.
A descoberta de Zeca Pagodinho
A repercussão aconteceu em meio às discussões nas redes sociais sobre o relacionamento do cantor Vitão com Luísa Sonza, que havia sido casada com o humorista Whindersson Nunes. Na época, o músico era chamado de “talarico” por internautas, e o sobrenome do deputado americano acabou entrando na conversa.
O volume de menções surpreendeu até a equipe do político. Em outra publicação, Talarico agradeceu aos brasileiros responsáveis pela brincadeira, entre eles o divulgador científico Pirulla, e comentou que seus assessores haviam ficado alarmados com as milhares de notificações recebidas.
A história ganhou um novo capítulo quando ele descobriu a música “Talarico, Ladrão de Mulher”, gravada por Zeca Pagodinho em 1992, que ajudou a popularizar a expressão no Brasil.
O democrata compartilhou a canção, elogiou o samba e fez questão de agradecer ao artista brasileiro.
“Obrigado por tornar esse dia possível, Zeca Pagodinho”, escreveu em 11 de novembro de 2020.
A brincadeira repercutiu também entre os seguidores do sambista. Dois dias depois, o perfil oficial de Zeca Pagodinho compartilhou a história nas redes sociais, celebrando o alcance internacional da música.
Por trás do episódio bem-humorado, porém, está um político com uma trajetória pouco convencional no cenário americano: um cristão de formação evangélica que utiliza sua fé para defender direitos sociais, criticar bilionários e confrontar a influência da religião sobre o Estado.
Evangélico, mas contrário ao nacionalismo cristão
Nascido em Round Rock, no Texas, James Talarico foi professor de inglês em escolas públicas antes de ingressar na política. Formado pela Universidade do Texas e pela Universidade Harvard, foi eleito deputado estadual em 2018, aos 29 anos, e construiu sua atuação em torno da defesa da educação pública, do acesso à saúde e dos direitos dos trabalhadores.
Cristão e estudante de teologia em um seminário presbiteriano, Talarico se apresenta como um representante do cristianismo progressista, corrente que associa a fé religiosa à defesa da justiça social e dos direitos humanos.
Sua posição contrasta com a de setores da direita religiosa americana, especialmente aqueles ligados ao nacionalismo cristão, movimento que busca ampliar a influência de determinadas interpretações do cristianismo sobre as instituições e as políticas públicas dos Estados Unidos.
Em seu site de campanha, Talarico defende a separação entre Igreja e Estado e critica o uso da religião para justificar políticas discriminatórias.
Como deputado estadual, combateu propostas republicanas que pretendiam tornar obrigatória a exibição dos Dez Mandamentos nas salas de aula de escolas públicas e permitir a substituição de orientadores escolares por capelães religiosos sem formação específica para a função.
O democrata também defende o direito ao aborto, o acesso a métodos contraceptivos, a fertilização in vitro e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para o Senado, propôs restabelecer proteções federais aos direitos reprodutivos e combater medidas discriminatórias contra a população LGBTQIA+.
Defesa dos trabalhadores e críticas aos bilionários
Na economia, Talarico construiu sua campanha em torno de críticas à concentração de riqueza e à influência de grandes empresários sobre a política americana.
Entre suas principais propostas estão a elevação do salário mínimo federal para US$ 15 por hora, a ampliação do pagamento de horas extras, o fortalecimento dos sindicatos e a criação de mecanismos de proteção aos trabalhadores.
O democrata também defende a aprovação do PRO Act, projeto de lei que busca facilitar a organização sindical e ampliar a proteção dos empregados durante negociações coletivas.
Na área tributária, propõe acabar com benefícios fiscais que permitem a grandes corporações reduzir drasticamente o pagamento de impostos. Outra medida defendida por ele é a criação de uma tributação adicional sobre empresas cujos principais executivos recebam mais de 250 vezes o salário mediano de seus funcionários.
Sua defesa dos direitos trabalhistas também está ligada à própria história familiar.
Segundo relato publicado em seu programa de campanha, sua mãe trabalhava em um hotel quando deu à luz sua irmã, que nasceu dez semanas antes do previsto e precisou permanecer internada em uma unidade de terapia intensiva neonatal.
Sem acesso à licença familiar remunerada, ela foi demitida por telefone enquanto acompanhava a filha no hospital.
A experiência é uma das referências utilizadas por Talarico para defender uma legislação nacional que permita aos trabalhadores se afastar temporariamente do emprego para cuidar de filhos recém-nascidos ou familiares gravemente doentes.
Em setembro de 2025, o político também participou de uma manifestação de funcionários de hotéis em greve em Houston, no Texas, reforçando sua aproximação com o movimento sindical.
Seu discurso procura deslocar o debate político das divisões tradicionais entre democratas e republicanos para as desigualdades econômicas. Para Talarico, a principal divisão da sociedade americana não está entre esquerda e direita, mas entre os trabalhadores e aqueles que concentram riqueza e poder.
Saúde pública, educação e direitos civis
A defesa do acesso à saúde é outra marca de sua trajetória política. Diagnosticado com diabetes tipo 1 aos 28 anos, Talarico relata que precisou pagar US$ 684 por seu primeiro suprimento mensal de insulina, valor que colocou no cartão de crédito.
A experiência pessoal influenciou sua atuação no Legislativo estadual, onde participou da aprovação de medidas para limitar a US$ 25 mensais o copagamento de insulina em planos de saúde abrangidos pela legislação do Texas.
Para o Senado, defende ampliar a cobertura de saúde, reduzir os preços de medicamentos e combater práticas abusivas da indústria farmacêutica.
Na educação, o ex-professor se opõe à transferência de recursos públicos para escolas privadas e defende maiores investimentos no ensino público. Também atuou contra propostas de censura de livros em instituições de ensino.
Talarico ainda propõe a legalização e regulamentação da maconha para uso adulto, com a possibilidade de destinar parte da arrecadação tributária à educação infantil.
Em relação à imigração, o democrata critica políticas que atingem indiscriminadamente famílias e comunidades de imigrantes. Sua plataforma defende a proteção de refugiados e solicitantes de asilo, ao mesmo tempo em que propõe concentrar os esforços de fiscalização no combate ao tráfico de pessoas e ao crime organizado.
Vitória histórica em reduto republicano
A eleição de Talarico representa uma mudança significativa no cenário político do Texas, estado que votou majoritariamente em Donald Trump nas eleições presidenciais de 2024 e onde os republicanos dominavam as disputas estaduais havia mais de três décadas.
O democrata derrotou Ken Paxton, procurador-geral do Texas e aliado do presidente americano, em uma das disputas mais acompanhadas das eleições de meio de mandato.
Segundo a agência Reuters, os republicanos e grupos aliados investiram mais de US$ 316 milhões na tentativa de manter a vaga no Senado. Apesar do volume de recursos e do histórico conservador do estado, Talarico conseguiu mobilizar eleitores em torno de temas como o custo de vida, a corrupção e a influência de grandes financiadores sobre a política.
O resultado fez parte de uma onda de vitórias democratas no Texas. Na disputa pelo governo estadual, Gina Hinojosa também derrotou o republicano Greg Abbott, tornando-se a primeira mulher latina eleita governadora do estado.
Veja o discurso de vitória
Com mandato previsto para começar em janeiro de 2027, Talarico chega ao Senado como um dos nomes em ascensão do Partido Democrata, combinando uma identidade religiosa assumida com propostas econômicas e sociais progressistas.
Para parte dos brasileiros, no entanto, o novo senador já era um personagem conhecido desde 2020, quando uma coincidência envolvendo seu sobrenome atravessou fronteiras e terminou com uma promessa bem-humorada de não roubar a namorada de ninguém e um agradecimento inesperado a Zeca Pagodinho.
