Houve um tempo em que os donos das grandes indústrias eram tratados como heróis do empreendedorismo nacional. Tanto que, ao estilo do que já acontecia nos Estados Unidos, vários deles ostentavam informalmente um título nobiliárquico: todos eram chamados de barões.
Um desses personagens até tinha o título oficial. Irineu Evangelista de Sousa foi sagrado Barão de Mauá em 1854 pelo Imperador D. Pedro II por reconhecimento ao seu pioneirismo na modernização do Brasil.
Os demais donos de indústria não ingressaram oficialmente no baronato, mas eram tratados pelo apelido. Em especial os empresários paulistas.
Hoje, o cenário mudou completamente.
A principal entidade representativa das indústrias paulistas não tem nada de heroica e nem de modernizadora.
A julgar pelas opiniões expressadas em nota sobre o tarifaço de Donald Trump, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, está muito mais para vilão que para mocinho.
Diante da absurda tarifa de 25% que o presidente dos Estados Unidos aplicou sobre vários produtos brasileiros, o bolsonarista Skaf assinou o texto mais humilhante que um líder empresarial poderia criar.
Como sempre acontece, culpou o governo pelo acontecido.
Citou “ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”.
O que Skaf considera como “desalinhamento político com Washington” é, na verdade, a resistência da gestão Lula em ficar de joelhos e aceitar todos os caprichos de Trump contra a indústria nacional.
Como o colunista do ICL Notícias Jamil Chade revelou em primeira mão, para negociar redução de tarifas o governo dos EUA exigiu que o Brasil barrasse investimentos chineses no setor de terras raras e minérios, além de abrir de forma plena o mercado nacional para bens americanos.
Segundo o texto da “proposta”, revelado por Jamil, os Estados Unidos exigiam do Brasil simplesmente “eliminar tarifas sobre bens industriais dos EUA, incluindo químicos, veículos e autopartes, produtos médicos e frutos do mar”.
Trump também queria que o governo brasileiro aceitasse “a importação de veículos produzidos nos EUA” não mais de acordo com as normas nacionais, mas seguindo “as Normas Federais de Segurança de Veículos Motorizados dos EUA”.
Além disso, os americanos queriam que aceitássemos “certificados eletrônicos e autorização prévia de comercialização do FDA (Food and Drug Administration dos EUA) para dispositivos médicos e produtos farmacêuticos produzidos nos EUA” sem contestação.
Diante disso, é difícil pensar em algo mais sabujo do que a rendição proposta pela nota da Fiesp, contra os interesses do próprio setor que diz representar.
O texto abjeto afirma ainda que “a retaliação comercial poderia ter sido evitada com uma condução
técnica e pragmática”. Em uma palavra: capitulação.
Confirma-se assim que não restou nada de heroico aos industriais de hoje — ou ao menos aos que representam esse pedaço importante da economia brasileira.
Para bajular Trump, a Fiesp de Paulo Skaf está disposta até mesmo a prejudicar as empresas brasileiras e pisar na soberania nacional.
Lamentavelmente, esses que foram um dia os barões da indústria estão hoje mais para barões da pisadinha.
