Quem tem idade suficiente já assistiu certamente ao pungente espetáculo de ver os filhos dos capitalistas de ontem, donos das empresas de hoje, a falarem-nos de mérito, de como o mérito é importante e de como o mérito merece ser valorizado e protegido como valor social da maior importância. Esse prodigioso mérito consiste, para estes senhores, filhos de outros senhores, em ter-se dado ao trabalho de nascer, como se dizia no final do século dezoito em França. No Brasil, a coisa extravasa para a política — o mérito do candidato da direita é o sobrenome Bolsonaro.
O problema dos outros potenciais candidatos da direita é, portanto, o sobrenome. Falta-lhes o sobrenome. Só Bolsonaro é autêntico, só Bolsonaro é legitimo, só Bolsonaro é, como dizem aí, raiz. Todos os outros são impuros e farsantes – só um Bolsonaro está em condições de “dar continuidade ao nosso projeto de nação”. E pronto, assunto arrumado, fica então Flávio Bolsonaro, cuja escolha foi feita por método divino — ungido por seu pai.
No império romano, as escolhas para Imperador tinham por regra uma avaliação prévia de provas dadas, um “cursos honurum” que os habilitava para o cargo. Trajano, por exemplo, foi imperador depois de ter desempenhado vários cargos públicos como tribuno, questor e cônsul (“Trajano, el mejor emperador”, de David Soria Melina). Este é talvez o melhor da tradição republicana – a escolha para supremo magistrado é precedida de prestação de provas. No Brasil, a direita parece ter desistido de ser republicana: aos herdeiros basta terem-se dado o trabalho de nascer.
E, por favor, não culpemos apenas Bolsonaro, ou a sua família — a responsabilidade é de toda a direita. Todos os que, na direita, se calam são cúmplices. Todos os que não se inquietam com o que se esta a passar atraiçoam a tradição republicana: o que conta é a qualificação pessoal não o nascimento. A direita brasileira resolve assim as suas questões políticas internas: vence quem tiver o melhor apelido.
Dizem que Lula da Silva terá a vida facilitada. Sem dúvida. A eleição será mais fácil para a esquerda. Mas o problema não é esse — o problema é com a democracia brasileira, que vê um dos seus lados abandonar as escolhas democráticas internas para se entregar a uma linhagem familiar que a tem refém dos seus caprichos e dos seus interesses. Sejamos claros: esta situação coloca a direita brasileira numa situação de caricatura e apresenta os seus dirigentes como incapazes. Se ninguém se opuser, se ninguém contestar, se ninguém avançar, a direita não poderá mais falar de mérito, ou de competência, ou de saber, ou de talento — afinal, para vencer, basta dar-se ao trabalho de nascer.
