Por Carolina Martins
No fim da tarde deste sábado (19), o palco do Despertar 2026, no Vibra São Paulo, recebeu dois integrantes do Núcleo Investigativo do ICL: a jornalista Juliana Dal Piva, colunista do ICL Notícias, que há oito anos investiga a família Bolsonaro, e o repórter Paulo Motoryn, que participou de algumas das apurações de maior impacto na política recente do país.
O Núcleo reúne jornalistas dedicados a reportagens aprofundadas e à revelação de informações de interesse público. Foi essa rotina de trabalho que os dois detalharam na conversa: como apuram, checam e publicam informações de grande peso, entre elas as reportagens sobre as relações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, e do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Um podcast perto de 1 milhão de plays
A conversa começou com um trecho do podcast investigativo “No Alvo – O herdeiro do Jair“, exibido no telão. A segunda temporada, que estreou em 10 de agosto, traz gravações inéditas sobre o esquema de lavagem de dinheiro no gabinete do senador Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Juliana perguntou ao público quem já havia ouvido e disse que a série deve chegar a 1 milhão de reproduções “nas próximas horas, talvez amanhã”.
O e-mail anônimo
Motoryn voltou ao dia 20 de março de 2026, quando, segundo ele, o principal canal de notícias do país exibiu um PowerPoint com as relações de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso em novembro de 2025. O presidente Lula, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ex-ministro Guido Mantega apareciam em primeiro plano na teia de relacionamentos do banqueiro, enquanto figuras da ultradireita e do Centrão ficavam em segundo plano. Motoryn disse que o quadro não mostrava toda a teia de relacionamentos de Vorcaro. “Quem assistiu aquilo ficou muito inquieto”, afirmou, e a partir dali passou a perseguir histórias sobre o caso.

Na noite de domingo, 10 de maio, ele terminava em casa um texto para o Intercept Brasil quando, já depois da meia-noite, abriu um e-mail anônimo com cerca de 40 anexos: capturas de tela de conversas e, por fim, um áudio que começa com a frase “Irmão, preciso te mandar um áudio pra você ouvir aí com calma”.
Nos dias seguintes, partiu da premissa oposta: a de que o material era falso. Passou a “tentar encontrar o buraco”, como disse, porque um erro custaria a sua carreira e a credibilidade do veículo. Em 13 de maio, o Intercept publicou o áudio em que Flávio negocia com Vorcaro recursos para bancar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, segundo a reportagem. Juliana contou que estava numa biblioteca perto de casa, no Rio, escrevendo o roteiro do primeiro episódio do podcast, quando o celular vibrou com a mensagem de Paulo.
Até hoje Motoryn não sabe quem lhe enviou o material. “Eu não sei quem é uma pessoa que acreditou no meu trabalho e acabou causando esse terremoto”, disse. Os dois têm suspeitas e se perguntam por que o conteúdo não tinha vindo à tona antes.
Confiança se constrói
Para Juliana, casos assim não aparecem por acaso. “Você trabalha muito tempo para que alguém, algum dia, confie em você”, afirmou. Ela construiu, por pelo menos dois anos, uma relação com a fonte do áudio revelado em setembro, no qual o deputado Nikolas Ferreira procura Vorcaro. Diferentemente de Motoryn, ela sabe quem enviou o material: uma pessoa de confiança, com acesso direto ao conteúdo, que explicou de onde ele veio e como foi extraído. A reportagem foi alvo de uma decisão liminar do TRE-MG que determinou sua retirada do ar, a pedido do deputado. O ICL diz manter a apuração e afirma que vai recorrer.
Segundo Juliana, os dois casos têm em comum o desejo de alguém de que informações que “não vinham à tona” viessem a público. Ela ressaltou que quem faz campanha deve explicações à sociedade sobre a própria situação, em vez de apontar o dedo para os outros.
A foto do “Sicário”
Os dois também contaram uma história que quase os levou a trabalhar juntos. Em julho, ambos participavam de uma formação internacional com jornalistas estrangeiros que cobrem governos autoritários e de extrema direita. Motoryn, de férias e no curso, recebeu de madrugada uma foto de Flávio Bolsonaro com Mourão, conhecido como “Sicário”, que a Polícia Federal aponta como integrante do grupo de intimidação ligado a Vorcaro, e a mostrou a Juliana. Dois minutos depois, o celular dela vibrou no aplicativo de mensagens que usa com fontes: era a mesma imagem.
Juliana o chamou para conversar fora da sala. Como estava de férias, Paulo disse a ela que tocasse a história. Ela enviou a foto a um colega do Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística, que a passou por cinco ferramentas diferentes para descobrir se havia montagem ou uso de inteligência artificial, e nada foi detectado. Depois de duas ou três horas de tensão esperando a resposta da equipe de Flávio, ela publicou a reportagem, que revela um encontro entre os dois em outubro de 2022.
“Contar as histórias escondidas”
Motoryn citou a pesquisa Datafolha divulgada na véspera, na sexta-feira (18), para mostrar por que o jornalismo investigativo precisa contar as histórias escondidas. Segundo o levantamento, 34% dos entrevistados acreditam que a maioria dos políticos envolvidos no caso Master é de esquerda, contra 27% que apontam a direita, 10% que citam o centro e 13% que dizem haver políticos de todos os campos; outros 16% não souberam responder. Na rodada anterior, de abril, 38% responsabilizavam o campo progressista e 20% a direita. Ou seja, a percepção mudou, mas o campo de esquerda ainda lidera como o mais associado ao escândalo.
“Na essência, o que o jornalismo investigativo faz é construir conhecimento”, afirmou Motoryn. Ele destacou que o trabalho depende de toda a equipe, dos bastidores, do roteiro, da edição e da direção.
Juliana encerrou agradecendo ao público. Segundo ela, é o apoio da comunidade que torna o trabalho possível diante dos ataques, das ameaças e dos assédios que, diz, os jornalistas sofrem demais. Neste sábado, ela relatou nas redes sociais ter recebido ameaças e ataques após as reportagens.
Sobre o Despertar 2026
O Despertar 2026 continua neste domingo (20), no Vibra São Paulo. Em sua terceira edição, o evento reúne professores, pesquisadores, jornalistas, artistas e ativistas para debates sobre educação, cultura, democracia, direitos humanos e participação social.