A misoginia sempre foi confortável no Brasil. Ela anda de terno no Congresso, de toga em tribunais, de uniforme nas ruas e já andou até de anonimato nas redes sociais, hoje é descarada e estruturada.
Ela está nas piadas, nas decisões, nas sentenças, nas ausências. E, principalmente, na impunidade.
Agora, pela primeira vez em muito tempo, há um projeto de lei que tenta mexer nesse alicerce equiparando a misoginia ao crime de racismo. Não é um detalhe jurídico. É dizer, de maneira clara e didática, que odiar, humilhar, ameaçar ou violentar mulheres não é “opinião”, não é “exagero”, não é “mimimi”. É crime grave. É estrutura de poder.
E é exatamente por isso que a reação vem tão enfurecida.
Os mesmos grupos que gritam por “liberdade de expressão” são os que mais se incomodam quando essa liberdade deixa de ser licença para agredir. A extrema direita brasileira – que se alimenta de discursos de controle, hierarquia e nostalgia burra de um mundo onde mulheres sabiam “o seu lugar”, entendeu rapidamente o que está em jogo aqui: perder o privilégio de atacar sem consequência.
Para aqueles e aquelas que construíram identidade política baseada na ideia de superioridade disfarçada de “valores tradicionais”, qualquer tentativa de responsabilização vira censura. Qualquer limite vira perseguição. Qualquer avanço vira “ditadura”. Isso não é coincidência.
A misoginia é uma engrenagem central desse pensamento. Ela organiza o mundo em níveis: homens acima, mulheres abaixo. E, dentro disso, estabelece quem fala, quem obedece, quem manda, quem suporta. Quando o Estado decide tratar a misoginia como crime grave, ele desmonta essa lógica e isso assusta.
Assusta porque expõe. Porque responsabiliza. Porque tira o conforto de quem sempre falou sem ser interrompido e nunca foi punido.
O argumento de que “já existem leis suficientes” não se sustenta diante da realidade: mulheres continuam sendo perseguidas, ameaçadas, silenciadas e mortas. A violência começa na palavra. Ignorar isso é conivência.
Equiparar a misoginia ao racismo é coerência. Ambos são sistemas que desumanizam, inferiorizam e autorizam violência. Eles produzem exclusão, medo e morte. O que está em jogo é liberdade de existir sem ser alvo. E talvez seja isso que mais incomode. Porque, no fundo, o que esse projeto de lei faz é simples e revolucionário: ele tira a misoginia do campo da opinião e a coloca onde sempre deveria ter estado.
No campo do crime.

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