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Crise no varejo leva redes a reestruturar R$ 68 bilhões em dívidas

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Por Maeli Prado e Maria Clara Matos

(Folhapress) – Grandes varejistas brasileiras reestruturaram mais de R$ 68 bilhões em dívidas com credores nos últimos dois anos e meio via recuperação judicial ou extrajudicial. A crise, segundo especialistas, foi se intensificando com a alta dos juros, o endividamento elevado e a concorrência crescente com o comércio eletrônico.

Do caso Americanas em janeiro de 2023 às recuperações judiciais pedidas nesta semana por Casas Bahia e Marabraz, pelo menos oito redes recorreram a esses instrumentos no período, cinco delas neste ano.

A Americanas abriu a sequência de crises após a descoberta de inconsistências e fraudes nos balanços, que culminaram em R$ 43 bilhões em dívidas. Pouco mais de um ano depois, as redes Dia (R$ 1,1 bilhão em dívidas) e Polishop (R$ 352 milhões) também entraram em recuperação judicial.

Neste ano, o Grupo Pão de Açúcar entrou em recuperação extrajudicial (R$ 4,5 bilhões em dívidas), seguido pelas recuperações judiciais de Casa & Vídeo (R$ 1,1 bilhão), Tok&Stok (R$ 1 bilhão), Casas Bahia (R$ 17,3 bilhões) e Marabraz (R$ 140 milhões).

Ao contrário da Americanas, cuja derrocada começou com a revelação de fraudes contábeis internas, os casos mais recentes refletem o esgotamento do próprio modelo de negócios do varejo tradicional sob a pressão de juros altos e crédito restrito, na avaliação de especialistas.

Um dos motivos da piora do varejo é que o modelo baseado em lojas físicas perdeu força diante do ecommerce (Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil)

Motivos

Consultores de varejo apontam que, a despeito das particularidades de cada caso, a escalada da taxa básica de juros (Selic), de 2% entre o final de 2020 aos atuais 14% ao ano, é um pano de fundo que prejudicou todas elas.

Isso porque o setor varejista precisa se capitalizar tanto para oferecer crédito aos consumidores -para comprarem seus produtos- quanto para financiar suas próprias despesas com empréstimos.

“Os juros altos têm triplo efeito perverso. Eles sufocam a demanda, asfixiam as empresas e limitam a capacidade das companhias de financiarem os seus clientes, o que é o oxigênio do varejo”, afirma o consultor Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail.

Apesar da taxa de desemprego na mínima histórica, o elevado endividamento das famílias em relação à renda, hoje em 49,8%, segundo os últimos dados do Banco Central, é apontado como outro motivo comum à crise das empresas.

“A renda aumentou, mas a fatia dessa renda que aumentou vai para um maior número de despesas, como dívidas e bets. Isso faz o comportamento do consumidor mudar e deixar itens mais caros, como eletrodomésticos, de lado”, afirma o consultor empresarial Douglas Martins, da Vektor Marketing.

Além do cenário macroeconômico, Jean Paul Rebetez, sócio diretor da Gouvea Consulting, vê uma mudança profunda no modelo de negócios do varejo nos últimos anos.

“Esses modelos de varejo, como o da Casas Bahia e da Marabraz, foram construídos em um momento em que se pensava só no crescimento, em estar presente em todos os locais possíveis. Havia muitas ruas com mais de uma Casas Bahia, lojas separadas por apenas 200 metros”, afirma.

Em um cenário macroeconômico adverso, diz, as empresas precisam estar mais focadas no resultado. “Hoje em dia o resultado fala mais alto que a receita, a sustentabilidade financeira fala mais alto que a presença. O modelo antigo precisa ser repensado”.

Para Rebetez, o varejo passa por uma espécie de “detox do crescimento”. “E isso pode gerar muita dificuldade de adaptação. A gestão antiga precisa a aprender a trabalhar com esse novo cenário, e isso é difícil.”

Novos tempos

Na avaliação de Martins, faltou adaptação aos novos tempos pelas grandes varejistas. “Faltou timing. A Casas Bahia até começou, mas demorou muito. A Magalu fez esse movimento há mais de cinco anos, e comprou redes nativas digitais de ecommerce.”

Ele aponta que o modelo de empresas como Casas Bahia, Marabraz, Casa & Vídeo e Tok&Stok é muito dependente de lojas físicas.

“É um custo operacional muito alto para manter, e o custo de financiamento do cliente que vai comprar também é muito elevado. Com a taxa de juros, fazer esse movimento financeiro para elas é muito caro, e a conta não fecha.”

Rebetez aponta que hoje há uma dispersão do consumo por causa das plataformas digitais. “E existe uma parcela da carteira dos consumidores que vai para comunicação, internet, telefonia. É um consumo que talvez há dez anos não tínhamos”, diz.

É a mesma avaliação de Fernando Siqueira, analista de varejo da Eleven.

“O que tem acontecido nos últimos anos é que as pessoas têm comprado cada vez mais online. Existe muita loja física, como é o caso de Marabraz, Casas Bahia, e essas empresas têm uma estrutura muito mais inchada, com um custo fixo muito alto”, afirma o analista.

Para a CEO da AGR Consultores, Ana Paula Tozzi, a concentração da crise no varejo se dá em bens duráveis. Esse é o segmento, afirma ela, que é mais impactado pelas taxas de juros altas e pela concorrência.

“É o varejo que cresceu em modelo de lojas físicas, o varejo de móveis, entre outros, que depende desse cenário macroeconômico. Eles estão sendo pegos pela ponta do endividamento e pela ponta da venda”, afirma.

Para os especialistas, é possível que mais empresas do varejo entrem em recuperação judicial.

“Acho que pode não parar por aí”, diz Rebetez, da Gouvea Consulting. “Não podemos esquecer que a recuperação judicial, se resolver, resolve o passado. O verdadeiro teste do mercado é reestruturar suas organizações, seus custos. Esse é o verdadeiro desafio dos gestores.”





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