Imagine um governo que desmonta a democracia, invade países soberanos, ameaça aliados e inimigos, rompe acordos internacionais, mata lideranças estrangeiras, estrangula minorias, corta verbais sociais, sequestra presidentes, faz pessoas em seu país desaparecerem, aplaude e financia uma limpeza étnica, humilha os mais vulneráveis.
É ali que, hoje, o maior evento do planeta ocorrerá, a Copa do Mundo de 2026. Supostamente para celebrar a humanidade, o Mundial se transformou num espelho de um governo que tem na exclusão seu princípio norteador.
A Copa que terá 80% de seus jogos nos EUA revela a hipocrisia da Fifa, da comunidade internacional e dos arautos dos direitos humanos. Há poucos anos, quando a Indonésia ensaiou concorrer para sediar a Copa, sua recusa em garantir que atletas de Israel entrariam no país fez com que a Fifa imediatamente desclassificasse a candidatura.
Agora, a recusa do governo norte-americano em dar vistos para um árbitro, suspender ingressos para iranianos ou promover uma vistoria vexatória de seleções de países africanos sequer recebeu um comunicado de condenação por parte da Fifa.
Na África do Sul em 2010 ou no Brasil em 2014, a entidade máxima do futebol praticamente suspendeu as leis domésticas para impor sua lei. Hoje, a Copa será sediada por um governo que ditou as regras do evento.
O Mundial ainda ocorre num país em guerra. Horas antes da bola rolar, uma chuva de mísseis foi disparado contra o Irã.
Os escândalos na Copa de 2026 não começaram neste ano. Há quase uma década, quando a Fifa votou por realizar o evento nos EUA, México e Canadá, os cartolas foram confrontados com um decisão importante: expandir ou não o Mundial para 48 seleções?
Naquela conferência, os dirigentes encontraram em seus quartos de hotel um dossiê. Nele, dois elementos foram apresentados pelo corpo técnico da Fifa.
O primeiro deles afirmava com todas as letras: a expansão da Copa iria reduzir a qualidade do torneio.
Mas havia um segundo elemento a ser considerado: a ampliação inédita permitiria a Fifa ampliar seus lucros em US$ 1 bilhão.
Entre o dinheiro e o bem do futebol, os dirigentes optaram pelo óbvio: grana.
Ao longo dos anos, com a venda inédita de direitos de transmissão e contratos de publicidade, a Fifa fez do Mundial de 2026 em uma máquina sem precedentes de fazer dinheiro: US$ 13 bilhões.
A cobiça transformou o evento que, de fato, vinha se transformando em uma festa cada vez mais exclusiva nas últimas edições. Mas nada que se comparasse ao que 2026 mostraria ao mundo.
Com ingressos a preços sem precedentes, a Copa passou a ser um evento para a elite global. A maior festa do esporte mais popular do planeta simplesmente passou a ser inacessível para bilhões de pessoas.
Em uma queixa oficial enviada à Comissão Europeia no mês passado, o grupo de torcedores europeus, o Football Supporters Europe, alegou que o custo mínimo para um torcedor que queira assistir ao seu time desde a primeira partida até a final seria de US$ 6.900, apenas para os ingressos, cinco vezes mais caro do que no Catar.
Para a final no MetLife Stadium, em Nova Jersey em 19 de julho, o ingresso mais caro custará US$ 10.990, quase sete vezes o preço do ingresso mais caro para a final de 2022 no Catar. Tentando se defender, a FIFA afirma que mais de mil ingressos para a final foram vendidos por US$ 60.
Economicamente e politicamente, o evento é marcado pela exclusão. A “anti-copa”, transformada numa arma política para um regime autoritário, será um espetáculo apenas no imaginário de torcedores pelo mundo, forçados a acompanhar a festa pelas televisões.
Gianni Infantino, o presidente da Fifa, entrará ainda para a história como aquele que optou pelo “pragmatismo” para salvar seu evento. Selou um acordo pelo qual Donald Trump seria bajulado. Em nome de bilhões de dólares, ele abriu mão das próprias regras da Fifa e de qualquer ética. Vendeu o futebol e sua alma.
Na quarta-feira, na coletiva de imprensa que tradicionalmente precede um Mundial, uma de suas frases ecoará nos livros de história quando as gerações futuras discutirem como tal evento optou por fechar os olhos diante da cavalgada de supremacistas brancos.
“Talvez às vezes seja melhor simplesmente relaxar”, disse Infantino.
Mas o torcedor não renunciará ao futebol, apenas de expulso da arquibancada. O futebol sempre reserva uma surpresa aos anfitriões. Subversivo, o esporte em geral não perdoa. Pergunte a Jessy Owens e o enfado de Hitler.
Já a história olhará para 2026 e perguntará: como aquela geração optou por ignorar os crimes e simplesmente festejar o gol?
Nos EUA de Trump, a Fifa optou por escrever mais um capítulo vergonhoso de sua história. Numa trajetória repleta de absurdos.
