Numa entrevista publicada neste domingo no jornal Clarín, da Argentina, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, afirmou o Javier Milei deve parar de agredir o Brasil “imediatamente”. As declarações ocorrem depois de duas semanas de tensão entre os países, a retirada de embaixadores e de constantes ataques por parte do presidente da Argentina contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Questionado se Milei agiu a mando de Washington ao atacar Lula e o Supremo Tribunal Federal, o chanceler desconversou.
“Não sei dizer; desconheço a natureza dos contatos do presidente Milei com o governo dos EUA. O que posso afirmar é que a situação bilateral entre Brasil e Argentina chegou a um ponto em que está sendo gerida por encarregados de negócios. Isso se deve às agressões — dirigidas não apenas a indivíduos, mas também ao Brasil, às suas instituições, aos seus poderes e ao presidente do Supremo Tribunal — cometidas pelo presidente argentino”, disse.
“E o presidente Milei não fez isso apenas uma vez; ele o fez em várias ocasiões em menos de uma semana, começando na convenção do Partido Liberal. As imagens daquele evento — a postura do presidente argentino e suas palavras duras — chocaram tanto brasileiros quanto argentinos; foi um comportamento surpreendente, que ele repetiu posteriormente”, afirmou o ministro.
Segundo ele, o mais importante a ressaltar é que a relação entre Argentina e Brasil é vital e transcende quem quer que esteja no poder em um determinado momento. “O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina; compartilhamos programas bilaterais de longa data e mecanismos cruciais — basta lembrar o encontro entre os presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney na fronteira, que inaugurou uma nova era nas relações mútuas. Chegamos até a estabelecer mecanismos de transparência em questões nucleares”, disse.
Para ele, a Argentina “precisa valorizar sua relação com o Brasil, assim como o Brasil valoriza sua relação com a Argentina”.
“Devemos ser muito claros: em prol dessa relação, esse tipo de agressão precisa cessar imediatamente para que possamos trabalhar no vínculo bilateral, que é tão importante”.
“Para o governo brasileiro, a relação entre os dois países é primordial — absolutamente vital — e precisamos saber se o atual governo argentino pensa o mesmo em relação ao Brasil. Aqueles insultos foram muito graves. Portanto, devemos preservar essa relação, interromper as agressões e retomar um caminho de normalidade em nossos laços binacionais”, disse.
Vieira ainda desmente a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria financiado uma suposta campanha internacional contra a Argentina.
“Isso é totalmente falso. Não é preciso ser economista para perceber o absurdo das alegações sobre pagamentos que somariam bilhões… …ou das referências feitas ao ex-ministro da Economia da Argentina — que também foi candidato à presidência. Ele veio ao Brasil, mas o fez para visitar o ministro da Fazenda brasileiro enquanto este ainda chefiava a pasta da economia; é impossível afirmar que isso significou que favorecemos um candidato específico. Isso é totalmente falso”, disse o chanceler, numa referência a Sergio Massa..
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Segundo o ministro, o embaixador brasileiro em Buenos Aires Julio Bitelli retornará “quando cessarem as condições que levaram à sua saída — assim como ocorreu com a saída do embaixador (da Argentina em Brasília, Guillermo Daniel) Raimondi, a quem conheço há 30 anos”.
“Ele é um diplomata distinto. É necessário um gesto: parar com os ataques. É um gesto simples, dada a importância das relações bilaterais”, disse.
Vieira deixou claro que gostaria de visitar a Argentina. Mas diz que a decisão de Milei de chamar Lula de comunista “faz parte de todo o padrão de ataques.
“É surpreendente porque o Brasil tem uma economia aberta — atualmente com a menor taxa de inflação de sua história, desemprego mínimo, comércio exterior robusto e enormes reservas internacionais. É um país que opera sob um modelo capitalista. O presidente Lula nunca negou nada nem tentou mudar esse padrão econômico. Não sei; talvez essa seja simplesmente a visão do presidente argentino”, disse.
O chanceler destacou ainda que respeita a eleição de movimentos de direita em toda a região e insiste que o Brasil não está isolado.
“Isso é falso; o Brasil mantém amplo contato com todos os países da região. Falo com vocês neste momento de Cali, na Colômbia, para onde vim para a posse do presidente Abelardo de la Espriella — uma cerimônia à qual o presidente Lula da Silva não pôde comparecer devido às eleições que ocorrerão em poucos meses”, disse.
“Na semana passada, também representei o presidente na posse da presidente peruana Keiko Fujimori. Mantemos excelentes relações com todos os líderes latino-americanos; o presidente chileno José Antonio Kast deve visitar o Brasil, e estamos definindo a data. Nossos laços com o presidente Rodrigo Paz, na Bolívia, são excelentes, e recebemos sinais muito positivos do governo peruano quanto à continuidade de nossa relação”, insistiu.
