Em meio a uma mudança sísmica na ordem internacional, o governo brasileiro faz uma reforma na distribuição de postos diplomáticos pelo mundo. Cerca de 20 novos cargos foram criados nas embaixadas do Brasil na Ásia, África e na América do Sul. Enquanto isso, postos nos EUA e Europa foram eliminados em algumas das capitais mais tradicionais como Paris, Londres ou Washington.
O ajuste ocorre em meio a uma profunda transformação no eixo de poder e nos fluxos comerciais do Brasil nos últimos anos. O reforço de diplomatas do Itamaraty principalmente em embaixadas asiáticas, portanto, atende a uma realidade econômica e de poder, e não necessariamente a uma posição ideológica.
De fato, a maior mudança na distribuição de diplomatas brasileiros ocorreu na Ásia, numa sinalização da opção tomada pelo Itamaraty para incrementar o foco da política externa numa das regiões que mais cresce no mundo.
Foram dez novos postos de diplomatas nas embaixadas do Brasil em Bangkok, Hanói, Jacarta, Kuala Lumpur, Manila, Pequim, Phnom Penh, Seul, Singapura e no Escritório em Taipé.
O ensaio da aproximação entre o Brasil os países asiáticos começou a ser desenhada logo no começo do governo Lula. O próprio presidente foi à cúpula da Asean em 2025 e, em julho, o chanceler Mauro Vieira, estará no encontro do bloco asiático nas Filipinas.
Para o Itamaraty, o fluxo comercial é revelador do novo peso da região para a economia brasileira. Em 2002, a corrente de comércio Brasil-ASEAN não chegava a US$ 3 bilhões. Em 2023, ela foi de US$ 33,6 bilhões e, em 2025, atingiu a marca de US$ 38,3 bilhões.
O que causa ainda mais otimismo por parte de membros do governo é que, desde 2023, as economias da Asean tem gerado sucessivos superávits comerciais ao Brasil. Em 2025, por exemplo, o Brasil registrou um saldo positivo de US$ 10,3 bilhões com essa região do mundo.
Em todas as comparações, os maiores parceiros do Brasil na Asean já superam o peso dos cinco membros do G7 – excluindo EUA e Canadá.
Nos últimos três anos, o Brasil exportou US$ 68,4 bilhões para Singapura, Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã. Neste mesmo período, as vendas foram de US$ 67,7 bilhões para Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália.
Entre 2023 e 2025, o Brasil acumulou um saldo positivo de US$ 35,9 bilhões com os cinco países da Asean. No mesmo período, o comércio brasileiro teve um déficit de US$ 36,7 bilhões com os cinco países do G7.
África ganha novos diplomatas
Depois de anos de promessas de que voltaria a olhar para a África, o Itamaraty finalmente anunciou o reforço às embaixadas do Brasil em Abidjã, Bissau, Dacar, Gaborone, Kigali, Libreville e São Tomé.
Lula havia sinalizado, no início de seu governo, que o Brasil colocaria a África como prioridade. Mas passou pelo menos dois anos com poucos resultados.
Simbólico foi ainda Lula embarcar há duas semanas para a cúpula do G7, em Evian, com um livro sobre a política externa do país para a África nas mãos. A obra era de um dos diplomatas que foi promovido e que, sob o governo de Jair Bolsonaro, havia sido colocado na “geladeira” na carreira.
Na América do Sul, foram mais duas expansões, com cargos em Georgetown e Paramaribo.
O movimento do Itamaraty foi acompanhado por cortes de postos em diversas embaixadas em locais que eram classificados como A no ranking de importância da chancelaria. Assim, perderam uma vaga cada as embaixadas do Brasil em Lisboa, Londres, Paris, Bruxelas, Genebra, além de Buenos Aires e Tóquio.
Perderam duas vagas as representações do Brasil em Berlim, na OCDE, (em Paris), em Washington e na missão permanente do país na OMC, em Genebra.
Os postos, alguns dos mais cobiçados e tradicionais da diplomacia brasileira, são vítimas de uma mudança do eixo de poder, do esvaziamento de instituições e da redução desses destinos dentro das prioridades políticas do governo.
