A auditoria independente contratada pelo Banco Regional de Brasília (BRB) após o escândalo relacionado ao Banco Master está investigando possíveis falhas de governança dentro da instituição controlada pelo governo do Distrito Federal. Entre os pontos analisados estão concentração de poder em poucas pessoas, acúmulo de funções e eventuais mecanismos que teriam impedido decisões estratégicas de chegar ao conselho de administração.
A apuração faz parte de uma série de relatórios conduzidos pelo escritório Machado Meyer Advogados em parceria com a consultoria Kroll, contratados para revisar operações realizadas pelo banco nos últimos anos.
Relatório aponta problemas na compra de carteiras do Banco Master
O segundo relatório da auditoria interna, que está em fase final de elaboração, concentra-se principalmente em possíveis irregularidades no processo de aquisição de carteiras de crédito do Banco Master pelo BRB.
Segundo as análises preliminares, cerca de R$ 12,2 bilhões em ativos apresentaram indícios de problemas ou fraudes. Parte dessas carteiras acabou sendo substituída por outros ativos, mas o banco ainda precisará provisionar mais de R$ 6 bilhões para cobrir potenciais perdas, o que deve impactar negativamente o resultado financeiro de 2025.
Além das questões de governança, os auditores identificaram fragilidades no processo de avaliação das carteiras adquiridas. A análise teria sido feita com base em amostragens limitadas e, em alguns casos, por funcionários com pouca experiência ou tempo insuficiente para examinar adequadamente os ativos.
Um episódio citado nas investigações envolve um funcionário que teria analisado uma carteira de crédito de grande valor em apenas três horas, no dia 24 de dezembro de 2024. Segundo relatos obtidos pela auditoria, a justificativa era a necessidade de aprovar rapidamente a operação para evitar a perda da oportunidade de compra.
Os relatórios também apontam indícios de que a gestão anterior teria criado uma estrutura interna pouco aberta a questionamentos. De acordo com os investigadores, postos de liderança teriam sido ocupados por profissionais alinhados à presidência, o que teria reduzido o espaço para críticas ou revisões das decisões tomadas pela direção.
Crise levou BC a exigir plano de capitalização
As dificuldades envolvendo as carteiras do Banco Master contribuíram para uma crise de liquidez no BRB, levando o Banco Central a exigir a apresentação de um plano de recomposição de capital.
Após autorização da Câmara Legislativa do Distrito Federal, a expectativa da atual gestão é aprovar esse plano em uma assembleia de acionistas marcada para 18 de março. No fim do mês também devem ser divulgados os balanços referentes ao terceiro e ao quarto trimestre de 2025, além de uma prévia dos resultados do primeiro trimestre de 2026.
O primeiro relatório da auditoria, entregue em fevereiro e encaminhado a órgãos de fiscalização e à Polícia Federal, já havia apresentado indícios de irregularidades envolvendo a aquisição de participações no BRB.
O documento citou operações ligadas ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao sócio da Reag João Mansur e a fundos de investimento associados ao ecossistema da instituição financeira.
Segundo o material preliminar, há suspeitas de uma possível triangulação envolvendo acionistas pessoas físicas e fundos ligados ao Banco Master durante processos de capitalização do BRB.
A auditoria ainda prevê um terceiro e último relatório, que deverá analisar a tentativa do BRB de adquirir o Banco Master. A negociação ocorreu ao longo de vários meses, mas acabou sendo rejeitada pelo Banco Central, que posteriormente decretou a liquidação da instituição controlada por Vorcaro.
Essa fase final da investigação deverá tratar também das eventuais responsabilidades administrativas e civis relacionadas aos prejuízos causados ao banco público.
