Por Cleber Lourenço
Investidores estrangeiros ampliaram em US$ 6,84 bilhões sua exposição ao dólar no mercado de derivativos da B3 na segunda-feira (26), primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O volume, apontado como recorde em levantamento da B3/DataWise divulgado pelo InfoMoney, coincidiu com uma disparada de 9,19% na cotação de referência do Banco Central e uma queda de 13,88% da Bolsa brasileira. A reação ao resultado eleitoral intensificou a pressão sobre o real e os juros, em um cenário de disputa sobre a manutenção de políticas sociais e o tamanho dos gastos públicos.
Parte do mercado financeiro havia apostado na vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que defendia cortes de despesas de até R$ 250 bilhões, privatizações e mudanças na atuação do Estado. Seu programa também previa revisões administrativas em políticas previdenciárias e assistenciais, medidas que poderiam restringir o acesso a benefícios dependendo de sua regulamentação e execução.
A derrota do candidato foi seguida por uma mudança abrupta nas posições financeiras. Segundo o Banco Central, a cotação PTAX de venda, taxa de referência calculada diariamente pela instituição a partir das cotações do dólar no mercado de câmbio, passou de R$ 5,0377, na sexta-feira (23), para R$ 5,5007 na segunda-feira. Na quinta-feira (29), permanecia em R$ 5,3744, ainda 6,68% acima do patamar anterior à votação.
No mercado futuro, o volume negociado de minidólar cresceu aproximadamente 67% entre os dias 23 e 26 de outubro, passando de 2,79 milhões para 4,66 milhões de contratos. Diante da volatilidade, a B3 ampliou duas vezes os limites de oscilação desses contratos e dos futuros de dólar, elevando o teto permitido de alta de 6% para 8,4% e, posteriormente, para 12%.
Pressão financeira favorece cobrança por cortes sociais
A turbulência atingiu também o financiamento da dívida pública. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e indexados à inflação previstos para os dias 27 e 29 de outubro, enquanto os juros futuros para janeiro de 2031 chegaram a 15,19% ao ano, após subir 2,54 pontos percentuais em um único pregão.
A elevação dessas taxas encarece o financiamento do governo e o crédito para empresas e consumidores. Também pode ampliar a cobrança por redução de despesas federais, inclusive em áreas como saúde, Previdência e assistência social, que concentram parte importante do orçamento e atendem diretamente a população de menor renda.
Durante a campanha, Flávio Bolsonaro defendeu uma redução expressiva do gasto público sem apresentar garantias detalhadas de preservação de todas as políticas sociais. Seu programa previa revisões de regras previdenciárias e assistenciais, enquanto integrantes de sua equipe econômica defenderam mudanças na estrutura do Estado e na prestação de serviços públicos.
A discussão não se limita, portanto, a números do orçamento. Alterações nas regras de concessão de benefícios, redução de recursos para serviços públicos e restrições de acesso podem atingir aposentados, pessoas com deficiência, famílias pobres e usuários do Sistema Único de Saúde.
A pressão financeira após a eleição recoloca essas propostas no debate econômico, embora a população tenha escolhido a continuidade de um governo que atribui prioridade à ampliação da proteção social e aos investimentos públicos.
Esse é um dos efeitos políticos possíveis de uma crise cambial: o encarecimento da dívida e o aumento das expectativas de inflação passam a servir de argumento para exigir cortes de gastos, inclusive em políticas destinadas à população mais vulnerável.
Os dados mostram uma reação financeira excepcional à vitória de Lula. Não demonstram, por si só, uma operação coordenada para impor ao governo as medidas defendidas pelo candidato derrotado.
Alta do dólar ameaça renda dos trabalhadores e custos de produção
Os efeitos de uma desvalorização persistente do real podem atingir principalmente as famílias de menor renda. A valorização do dólar encarece produtos importados e insumos negociados internacionalmente, com potencial de elevar preços de alimentos, combustíveis e mercadorias industrializadas.
Um estudo publicado pelo Banco Central em março de 2026 estimou que uma alta permanente de 10% do dólar pode acrescentar aproximadamente um ponto percentual à inflação geral em 12 meses. Para os alimentos consumidos dentro de casa, o impacto estimado chega a 2,6 pontos percentuais.
O resultado é especialmente relevante para trabalhadores que destinam uma parcela maior de seus rendimentos à alimentação. A estimativa não significa que a oscilação registrada após a eleição produzirá automaticamente esse efeito, já que parte da alta inicial foi revertida.
A indústria também enfrenta riscos. Empresas dependentes de máquinas, componentes e matérias-primas importadas passam a pagar mais por esses produtos. Na agricultura, fertilizantes e outros insumos sujeitos aos preços internacionais podem ficar mais caros. Embora exportadores possam se beneficiar do câmbio elevado, pequenos negócios com menor acesso à proteção cambial ficam mais expostos.
A combinação de dólar elevado, juros mais altos e pressão por cortes sociais pode atingir a população de duas maneiras: pela perda de poder de compra e pelo enfraquecimento de serviços e benefícios públicos. É nesse ponto que a reação financeira ao resultado eleitoral ultrapassa as mesas de negociação e alcança as condições de vida de quem depende do salário, da Previdência, da assistência social e do SUS.
