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“Ainda descobriremos que foi tudo um sonho ruim”, disse Veríssimo no auge do governo Bolsonaro

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Em sua última entrevista para o Brasil de Fato, Luiz Fernando Veríssimo se demonstrou otimista, dizendo que o Brasil iria sair do que havia se transformado durante o governo de Jair Bolsonaro.

“Sou otimista. Ainda acredito que acordaremos e descobriremos que foi tudo um sonho ruim, e estamos na Dinamarca”, declarou o cronista, que morreu neste sábado (30), em Porto Alegre, aos 88 anos.

A entrevista exclusiva foi feita pela equipe do Brasil de Fato RS na edição especial do Brasil de Fato Humor, realizado em parceria com a Grafar, e ocorreu em 8 de janeiro de 2020, pouco mais de um ano após o líder da extrema-direita brasileira tomar posse como presidente do país. Na época, Veríssimo havia acabado de ter o romance “O Clube dos Anjos” traduzido para o mandarim.

Questionado se o bolsonarismo destampou “a face mais estúpida, sórdida e violenta do país que nunca havia aflorado até então”, o autor chamou atenção para o fenômeno da extrema direita nas redes sociais. “A estupidez não é novidade no Brasil, temos uma história de ódio e violência que vai longe. A novidade é a estupidez com acesso às redes sociais”, disse.

Já sobre a expansão do neopentecostalismo fundamentalista com Bolsonaro e a possibilidade de formação de um “Estado teocrático evangélico”, Veríssimo sintetizou: “Deus criou o mundo em seis dias e aproveitou a folga do sétimo para calcular quanto as igrejas lucrariam não tendo que pagar impostos, não Lhe sobrando tempo para fazer a Terra redonda em vez de plana, como era no projeto original. Se você não acredita nisso prepare-se porque a Inquisição vem aí”.

Um dos entrevistadores, Ayrton Centeno, relembrou uma fala de Veríssimo na virada do milênio, “no auge do neoliberalismo”, em que o autor dizia não saber em que século o Brasil estaria entrando. O autor respondeu desta forma: “A gente só conhece o futuro quando ele chega, e aí não é mais futuro, é presente, e irreversível. Quem diria que o século em que estávamos entrando, no Brasil, era o 19?”, respondeu o autor.

Veríssimo também foi perguntado sobre a falta de união entre as lideranças democráticas do centro e da esquerda e como isso pode ter acarretado na eleição de Bolsonaro. “A história da esquerda no Brasil é uma história de oportunidades perdidas. A desunião permitiu que a direita vendesse a ficção da esquerda como culpada de um atraso que ela mesma criou, em sucessivas derrotas de qualquer alternativa progressista a uma elite inconsciente, desde o Descobrimento. Em resumo”, colocou o cronista.

Outro assunto conversado na entrevista foi o militarismo e o negacionismo da ciência colocado por Bolsonaro em seu governo. “Dizem que Copérnico, Galileu, Darwin e todos os opositores do criacionismo serão banidos dos livros escolares brasileiros e substituídos pela nova teoria do evolucionismo militar, segundo a qual toda a raça humana começou como soldados rasos e foi subindo de grau”, ironizou Veríssimo. 

Em dado momento, a equipe do Brasil de Fato perguntou ao escritor se poderia se repetir, no caso de Bolsonaro, a avaliação de humoristas da Alemanha no pós-Segunda Guerra Mundial sobre as críticas divulgadas a Adolf Hitler durante o período do nazismo. Segundo a avaliação dos artistas na época, “as críticas mais folclorizaram o führer do que diminuíram sua imagem junto ao povão”. Sobre isso, o cronista destacou:

“Há esse perigo. Não dou duas gerações para que “bolsonaro” vire adjetivo, como elogio ou danação, dependendo de quem o usar e da memória de cada um”, disse. “A História terá dificuldade em entender o fenômeno Bolsonaro, mas talvez desenvolva uma lógica para explicá-lo. Para a História, o tempo acaba explicando até o ilógico”, completou. 



Fonte:Brasil de Fato

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