Entre abril e junho deste ano, o LinkedIn analisou os textos publicados na plataforma e encontrou um número difícil de ignorar. Cerca de 41% dos posts longos foram classificados como gerados por inteligência artificial. Entre as publicações curtas, a estimativa ficou perto de 30%.
O dado ajuda a dimensionar o espaço que o conteúdo sintético já ocupa na internet e também a entender a reação ao chamado AI slop, material genérico produzido em escala por sistemas automatizados. O incômodo já vai além da qualidade do que aparece na tela e começa a influenciar decisões das próprias empresas de tecnologia. Pesquisas apontam que quase metade dos americanos entre 18 e 29 anos acredita que a IA generativa provoca mais prejuízos do que benefícios. É justamente a geração que cresceu cercada por essas ferramentas.
O Substack passou a oferecer uma ferramenta da Pangram para identificar textos gerados por IA em posts, notas e comentários com mais de cem palavras. O Snapchat restringiu vídeos inteiramente artificiais no feed de descoberta e o YouTube passou a diferenciar produções que usam IA como ferramenta de conteúdo repetitivo fabricado em massa, com consequências para alcance e monetização.
Há também uma questão de consentimento. Usuários veem seus dados sendo usados para treinar modelos sem terem sido consultados e tem reagido, fazendo as empresas voltaram atrás depois das críticas. O Google abandonou em poucos dias uma ferramenta capaz de gerar imagens falsas de satélite no Google Earth e a Meta desativou um recurso do Instagram que permitia criar deepfakes de usuários três dias após o lançamento.
Na publicidade, campanhas do McDonald’s e da Coca-Cola feitas com imagens geradas por IA foram mal recebidas. Fora das telas, comunidades dos EUA onde estão sendo construídos novos data centers tem se organizado para resistir por conta dos impactos no consumo de energia e água e dos impactos econômicos locais. Dentro das empresas, trabalhadores também começam a resistir à obrigação de usar essas ferramentas.
Nada disso, porém, indica que o conteúdo sintético esteja recuando. A Roku acaba de lançar um canal gratuito com programação produzida por IA, 24 horas por dia. A aposta é num público que não se importa se aquilo foi feito por uma pessoa ou por uma máquina.
Esse contraste apareceu no episódio desta semana do RESUMIDO (https://resumido.cc). Enquanto algumas plataformas criam filtros e mecanismos para identificar conteúdo artificial, outras constroem produtos inteiros em cima dele.
O que começa a mudar é o valor atribuído à origem do conteúdo. Em alguns espaços, saber que existe uma pessoa por trás daquilo passa a importar mais. Em outros, cresce uma oferta praticamente infinita de material sintético para quem não faz questão de saber a diferença.
