Há uma semana, vivemos uma virada extraordinária – não apenas para a esquerda brasileira, mas também para as esperanças e os sonhos de liberdade de toda uma humanidade que luta contra a extrema direita. A vitória de Lula foi recebida como símbolo mundial e sopro renovado de esperança.
Com os ânimos mais serenos e o fugitivo-golpista longe daqui – acolhido pelos extremistas imperialistas Rubio e Trump -, começam as especulações e as disputas. Elas vêm não só de quem já está no governo, mas também daqueles que foram fundamentais para a virada de Lula: o povo. Alguns já chegam a dizer que há gente no PT que não gosta de gente. Bom, se isso for verdade, que o partido saiba ouvir os clamores populares que o conduziram a mais uma vitória épica.
Ainda sob certo alívio, e tentando fazer baixar a adrenalina alucicrazy que vivemos em outubro, fiquei pensando: o sopro de esperança e a luta por um mundo mais justo não passam apenas pelos grandes movimentos da História, mas, sobretudo, pela vida cotidiana – pela linguagem, pelos gestos e pelos hábitos. Ou melhor: como lutar contra o fascismo da sociedade totalitária mercantil nos próximos quatro anos?
Se a vida neoliberal é a quintessência da forma-mercadoria; se cada segundo de nossas vidas está tomado pelo individualismo do mercado, pela competição e por uma inserção social vinculada a indicações, conluios e conchavos, como romper com isso no cotidiano? Um primeiro passo seria implodir as hierarquias reforçadas pela competição capitalista. O problema é que o Capital não conhece limites e quem é tragado por ele (todo mundo) também entra nesse jogo.
Mas digamos que pudéssemos, no cotidiano, melhorar a nossa vida e a de quem está ao nosso redor. Digamos que pudéssemos fazer uma espécie de “redução de danos”, rompendo, ao menos em parte, a casca grossa da linguagem neoliberal. Digo isso porque as forças que quase nos derrotaram nas urnas e na vida também estão entre nós, os chamados “progressistas”. Aliás, que termo horroroso: diz muito sobre uma “frente ampla até doer” e sobre as concessões – possíveis e impossíveis – feitas ao mercado.
Em todo caso, vamos sonhar. E vamos ao nosso “manual antineoliberal” para os próximos anos:
Se você é progressista:
– Respeite as minas. Vamos barrar de vez essa misoginia. Amemos e admiremos as mulheres para além da encenação. Questione as estruturas do patriarcado presentes no cotidiano.
– Você não vai conseguir, sozinho, acabar com as hierarquias historicamente arraigadas. Mas não seja um tolo: respeite as pessoas que, de tantas maneiras, cuidam de você. Remunere-as adequadamente, ouça-as, permita-se ser cuidado e cuide também.
– No trabalho, respeite as demais trabalhadoras e trabalhadores. Toda a classe trabalhadora mundial tem sofrido com a exaustão e a precarização, mas precisa continuar trabalhando e pagando as contas. Cuide de quem está perto de você: ouça, converse, ajude. Não olhe apenas para o próprio umbigo.
– Se você se diz de esquerda e tem um negócio ou uma empresa de qualquer tipo, converse com seus funcionários: ouça e acolha. Mas vá além: crie uma infraestrutura adequada, ofereça incentivos e promoções, conceda aumentos acima da inflação, crie boas condições para as mães trabalhadoras. Enfim, faça o contrário do que prega a cartilha neoliberal. Assim saberemos quem está, de fato, ao lado dos trabalhadores.
– Se você não é dono ou dona de empresa, mas ocupa um cargo de confiança, público ou privado, dê o exemplo: não seja um pequeno tirano. E confie em mim: as pessoas sabem reconhecer tiranos. Quer ser visto como um? Não é legal.
– Sabemos que nossas famílias foram dilaceradas pelo ódio bolsonarista, expressão do fascismo brasileiro do século XXI. Então, como reatar os laços? Primeiro: você não é obrigado a nada. Nosso conceito de família deve ir além do DNA. Quem faz mal a você não deve ficar por perto. Mas, caso queira insistir – e se isso não for machucar você – tente conversar e expor seus argumentos com calma. Quando for o momento, calce as sandálias da humildade e se mostre acolhedor. Não é uma fórmula, mas vai que…
– Descanse, preserve-se, mas não perca de vista as redes que fazem bem a você e à vida comunitária, tão fundamentais para que não sucumbamos ao fascismo que nos espreita.
E vamos à luta! Porque lutar por nossos direitos é uma batalha hasta la muerte.
