Fiquei sem Mundial. Quando o Brasil perdeu, fiquei sem mundial. Ainda por cima perdeu justamente e perdeu com a mais amável das seleções – aqueles noruegueses espalham simpatia e fair play por onde quer que passem. Pela primeira vez na minha vida vi o Brasil jogar à defesa e com medo do adversário. A seguir veio o desastre português que me fez lembrar a infância quando aqui se dizia – Portugal ataca, Espanha marca. Desta vez Portugal nem atacou. Enfim, um Mundial para esquecer. Durante uns dias fiquei órfão do Mundial.
Mas hoje regressam os jogos e eu regresso lentamente, pesarosamente, ao Mundial. Vou apoiar a França. Não sei bem porquê – porque a Espanha derrotou Portugal? Não. não é por isso. Afinal, também tenho contas a ajustar com a França desde que nos ganhou uma meia-final em 1982, num jogo inesquecível. Nessa altura a França tinha Platini e nós tínhamos Chalana. Mas enfim, vingámo-nos no europeu de 2016 – ganhámos a final aos franceses, em Paris, no Stade de France e ainda por cima com sorte – ehehehe. Nunca esquecerei essa noite de glória.
Não, não é por não gostar da Espanha, de quem aliás gosto muito, que vou torcer pela França. É porque gosto do Mbappé (o meu favorito a seguir ao Vini Jr. ). Porque gosto do Dembélé e porque gosto do Désiré. Gosto daquele estilo, daquela velocidade e daquela simpatia pessoal. E depois são todos negros. George Moustakii, dizia isto sobre o Brasil: ali, naquela equipe francesa, a África parece viver ainda o seu exilio.
Vou apoiar a França porque a sua equipe me parece uma metáfora do nosso tempo. Não é uma árvore de uma só raiz, mas uma floresta inteira. Cada rosto parece trazer a memória de outra geografia; cada apelido parece atravessar um mar, um deserto ou um continente antes de chegar ao relvado. Há África, há Caraíbas, há Mediterrâneo, há Europa. Há o encontro improvável de mundos que a História separou e que o futebol, por noventa minutos, consegue reconciliar.
O que me aproxima da França e da sua equipe é a qualidade dos seus jogadores, bem entendido. Mas é também uma certa ideia de diversidade. Ali existe qualquer coisa de irradiante, qualquer coisa que vai além das fronteiras e se estende pelo mundo inteiro. Hoje é o Dia Nacional de França, o dia da revolução francesa, o dia da Bastilha, o dia da República. E isso conta para mim. Vamos em frente, França – Allez les Blues
Ericeira, 14 de julho de 2026
O Brasil perdeu e, com ele, desapareceu a equipa que eu escolhi como minha. Mas o Mundial nunca foi apenas uma competição desportiva. É também um exercício de imaginação, de identidade provisória, de adoção temporária de uma pátria emprestada.
A derrota deixa sempre um vazio. Não apenas porque desaparece uma equipa, mas porque desaparece uma forma de olhar para o jogo. Durante alguns dias, o Mundial fica órfão da nossa preferência.
É então que se procura uma nova casa.
Hoje, essa casa é a França.
Não porque seja perfeita. Nem porque tenha a leveza romântica do Brasil. Mas porque representa outra tradição admirável: a síntese entre talento individual e inteligência coletiva. A França joga com disciplina sem perder criatividade, com rigor sem perder imaginação. É um futebol construído pela diversidade, onde se cruzam origens, culturas e histórias distintas para formar uma única equipa.
Há também uma certa justiça poética nesta escolha. O Brasil ensinou o mundo a sonhar com a bola. A França ensinou-o que esse sonho pode ser organizado sem deixar de ser belo.
Mudar de equipa não é uma traição. É aceitar que o Mundial continua para lá da nossa primeira paixão. O adepto verdadeiro não torce apenas por uma bandeira; torce pela emoção que o futebol ainda consegue produzir.
Por isso, hoje, visto simbolicamente outra camisola.
O amarelo deu lugar ao azul.
Durante noventa minutos, serei francês. Não por nascimento, mas por escolha. Porque o futebol permite esta estranha cidadania temporária, em que a nacionalidade dura apenas o tempo de um jogo e termina ao soar do apito final.
Amanhã, talvez tudo mude outra vez.
Mas hoje, depois da queda do Brasil, o meu Mundial continua com a França. E, enquanto houver uma equipa capaz de fazer acreditar que o futebol é mais do que estatísticas, mais do que sistemas táticos, mais do que resultados, o Mundial continuará vivo. Não apenas nos relvados, mas também na imaginação de quem ainda escolhe torcer pela beleza.
