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A copa além de copa

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Já que a Copa do Mundo está chegando, quero recuperar algumas lembranças sobre o torneio de 2014, aqui no Brasil, que foram esquecidas pela tragédia do 7 X 1.

Aos fatos: Na Bahia, indígenas pataxós cantaram parabéns para o alemão Miroslav Klose; três pés de cana fizeram Manoel Neuer e Bastien Schweinsteiger gritarem, dando saltinhos, Bahêa! durante o hino do tricolor baiano; brasileiros foram a um amistoso da Croácia levando toalhas de mesa como bandeiras; um aracnídeo atacou um australiano e um maníaco sacou a peixeira durante o treino da Colômbia.

Cinco mil gaúchos, vestidos como se fossem para a Guerra dos Farrapos, receberam a delegação do Equador dançando o “bota aqui o seu pezinho”; um português ciclista, descrito por quem o conhece como completamente maluco, tentou se atirar de bicicleta na frente do ônibus de Portugal; o holandês Arjeen Robin quase se afogou na praia de Ipanema; o bebê brasileiro Drogbinha invadiu o treino da Costa do Marfim para conhecer o craque Didier Drogba.

Não parou aí: Eto´o citou Obina; os mexicanos usaram uma frota de táxis para ir ao treino em Santos (o ônibus da delegação desaparecera); chilenos trouxeram terra de uma mina soterrada para estimular a seleção; os ingleses esqueceram um jogador trancado no hotel; a Rússia pediu um amistoso e arrumou um jogo contra o Ituano; os croatas perderam a hora do treino porque foram à praia; um mineiro disse que ia envenenar a seleção argentina; hondurenhos resolveram acampar em um cemitério e quase mataram um coveiro de susto; o italiano Mário Balotelli, inspirado pelo cenário de Mangaratiba, pediu a namorada em casamento; o cara de pau do tradutor da seleção espanhola revelou finalmente, depois de surtar num coletiva, que tinha uma limitação para o trabalho, L a de não falar espanhol.

Anotei tudo num caderninho. Não anotei nada sobre os jogos.

Defini à época estes momentos como os de “saramandaização, chacriniana e sucupiresca” do padrão FIFA. No meio da venalidade da entidade sequestradora do futebol que rege o torneio e seus comparsas, as Copas do Mundo têm o poder de mostrar, paradoxalmente, que o futebol ainda respira na paixão que desperta nas pessoas. É essa dimensão humana, ponto de viração do mundo, que sempre me interessou.

Que venha a Copa de 2026 e que possamos enxergar, além do espetáculo feérico, escroto e desumanizado, nas frestas do megaevento, a paixão pela vida que o futebol desperta nas crianças, mulheres e homens do mundo inteiro.

Com a cerveja trincada e a carne no fogo, torcendo contra ou a favor da seleção, direito inalienável que deveria ser garantido na Declaração dos direitos humanos, já que ninguém é de ferro.





ICL Notícias

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