A caprichosa vitória do Garantido – por
site https://brasilfestasefolias.com.brVestida de vermelho e azul, brilha a pujança da Ópera Amazonense no Festival Folclórico de Parintins
Fotos: Comunicação Garantido e Caprichoso
O Garantido apresentou o tema “Nós, o Povo”; e o Caprichoso, “Um canto de esperança para Mátria Brasilis”.
O placar final do 54o Festival Folclórico de Parintins mostrou também que, na primeira noite (sexta, 28/6), houve empate em 419,2 pontos; no sábado, o Garantido venceu por 419,6 a 419,0; e no domingo, o vermelho também levou vantagem: 419,6 a 419,4. Foi a sua 32a vitória do boi vermelho, contra 24 do azul.
Os números indicam um resultado, mas não traduzem a beleza, a grandiosidade e a importância do Festival para a cultura brasileira. Nem motivam a grande mídia. Infelizmente, pouco se falou a seu respeito nas TVs e jornais do Rio de Janeiro, onde a Copa América domina o noticiário. Não fosse o esforço da parceria entre a TV A Crítica, de Manaus, e a TV Cultura, de São Paulo, perderíamos a oportunidade de ver o grande show da Ópera Amazonense.
Haveria lugar para o terceiro boi?
O espetáculo é tão impressionante que suscita dúvidas como a do produtor cultural Lula Dias, da assessoria cultural do Museu da República, no Rio de Janeiro. Dias atrás, Lula nos escreveu, perguntando:
Creio que seria hora para se criar outros bois; o boi verde, o amarelo, o abóbora, o dourado, prateado, sei lá, para diversificar a competição. Como não conheço a história da criação dessa festa, careço de consulta a respeito. O que me diz?
Fomos buscar respostas nos próprios bumbás. Primeiro com Márcio Costa, responsável pela Comunicação do Garantido:
– Particularmente, acho impossível surgir o terceiro boi. Ele teria que começar do zero e construir toda uma tradição, ao passo que Garantido e Caprichoso são bumbás centenários e possuem uma força popular muito grande. Não sou um estudioso da história do boi, mas sei que, na década de 70, existiu o terceiro grupo, o Boi Campineiro, amarelo e branco, tendo disputado o Festival duas vezes, em edições que o Caprichoso esteve afastado. Existem outros bois na ilha, mas são menores, são bois mirins, sem maiores pretensões.
Carlos Alexandre, responsável pela Comunicação do Caprichoso, também opina:
– É uma ideia antiga, mas nunca deu certo. O parintinenses é contra. O amazonense é contra. Aqui é Caprichoso e Garantido e olhe lá, não há mais espaço para outro boi. Já tentaram criar o Campineiro, o Tupinambá, mas não deu certo. A rivalidade é muito grande. Anos atrás, o então governador Omar Aziz resolveu criar um setor neutro de arquibancadas, na parte central do Bumbódromo, pintando-as de verde. Recebeu tantas críticas que resolveu voltar atrás.
10 lições para aprender com Parintins
Não estive no Festival, mas tenho mantido contato permanente com os companheiros que fazem a cobertura dos dois bumbás, além de contar com a ajuda do carnavalesco Cahê Rodrigues, que nos enviou informações sobre Parintins. Acompanhei as transmissões da TV Cultura e permaneci atento à cobertura de jornais e blogs do Amazonas. Pensando em aspectos que podem contribuir para a melhoria do trabalho de nossas Escolas de Samba e do próprio desfile, cheguei a algumas conclusões. Enumerei dez itens.
3 –PARTICIPAÇÃO DAS GALERAS – Os torcedores passam o dia inteiro na fila disputando a chance de entrar no Bumbódromo para ajudar o seu boi. Esgotadas as vagas, forma-se uma nova fila para a noite seguinte e lá se vão muitas e muitas horas de uma nova espera. Cá pra nós: é preciso muito amor… Eles cantam, dançam, fazem coreografias, desfraldam bandeiras, acendem lanterninhas e pulam sem parar durante duas horas e meia. E a maioria ainda faz promessas para o boi ser campeão. As galeras também são julgadas.
6 – CONSULTORIA NA TV – Os bois também estão atentos às gafes que, normalmente, apresentadores e comentaristas de TV cometem ao longo da transmissão. Cada grupo elege um representante de seu Conselho de Arte para atuar ao lado dos apresentadores, corrigindo falhas eventuais ou fazendo esclarecimentos sobre detalhes que as câmeras estão mostrando. Apesar da rivalidade, sempre que é feita uma comparação com o adversário, reagem com inteligência e elegância – o que reforça o alto nível da disputa.
9 – COMUNICAÇÃO PERMANENTE – Para atender à mídia nacional, os dois bumbás dispõem de Assessorias que trabalham em tempo integral, antes e durante o Festival. Enviam textos e fotos dos eventos que antecedem o grande espetáculo e, ao longo do três dias de competição. Além de releases e imagens, fornecem PDFs ilustrados, detalhando os diversos momentos que compõem a apresentação de cada noite. Havendo necessidade de um esclarecimento imediato, basta acessar o WhatsApp e consultar a fonte. Os milhares de quilômetros de distância entre Parintins e os jornalistas do Sul e Sudeste foram reduzidos a pó.
Julgadores condenam o “black face”
São artistas brancos que se pintam de preto para interpretarem personagens negros, como o Pai Francisco e a Catirina, figuras folclóricas da tradição. Esta prática – comum no teatro norte-americano na década de 50 – acaba ofuscando tantas defesas a componentes da identidade nacional, entre elas a da miscigenação.
Torçamos para que tenha sido a última vez do “black face” e, a partir do ano que vem, atores negros assumam os papeis de personagens negros – luta que Abdias Nascimento e Ruth de Souza começaram a empreender nos palcos brasileiros, também na década de 50.
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